Democracia além das urnas

Chegamos no segundo turno, em uma das eleições mais disputadas da história de nossa República. Houve outras igualmente acirradas; nenhuma, porém, com o grau de extremismo a que chegamos nesta. Não me refiro à polarização, comum às disputas de segundo turno. Refiro-me à pesada troca de acusações, à utilização de notícias falsas e, sobretudo, à adjetivação maldosa dirigida aos que pensam de forma contrária, à intolerância à divergência, à presunção de se pretender ser dono da verdade e de ver nos que divergem pessoas com deficiência cognitiva ou soldados do mal. Triste espetáculo.

O elemento argumentativo passou a ser a ofensa, como se o ofensor fosse dotado de percepção divina que lhe permitisse, e só a ele, distinguir o certo do errado. Inimizades surgiram, e o ódio, o mais subalterno dos sentimentos, se instalou em relações outrora saudáveis. Ficou proibido pensar diferente. Ao político de preferência e aos que o seguem, todas as loas, elogios e qualidades. Ao adversário e a seus correligionários, todos os defeitos, todas as ofensas, em raciocínio pueril e, portanto, carente de substância.

Em poucas horas, teremos a proclamação do resultado, que, por imperativo legal, teremos que aceitar. Será dito quem a maioria dos nossos patrícios escolheu para dirigir, no próximo quadriênio, a Nação brasileira. E é no dia seguinte que devemos pensar. Não com a pretensão de que os partidários do não eleito, seja quem for, abdiquem de suas posições, de seus sonhos ideológicos. A oposição é salutar e necessária. Alertar, apontar erros, sugerir ações e criticar, mesmo de forma incisiva, é coerente com a democracia.

A pretensão do pensamento hegemônico é o passo inicial para a tirania. O consenso não é pressuposto da democracia. Ao contrário, ela impõe o encontro de soluções no dissenso, no antagonismo que não se confunde com a malevolência. A compreensão do papel que cabe a cada um, governo e oposição, será fundamental para os destinos do País.

Saber conviver com os antípodas é o que caracteriza o regime que todos, ou quase todos, proclamamos; é a essência do Estado Democrático de Direito. Sem vê-los como desculpa para a ineficiência ou para se vitimizar.

Não basta proclamar a democracia; é preciso entendê-la para nela conviver.

Dr. Luiz Sérgio Neiva de Lima
Vieira – Desembargador aposentado do Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR)

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