Black Friday: Como se Proteger de Golpes Digitais e Evitar Prejuízos

A Black Friday costuma intensificar a busca por descontos em produtos de maior valor, mas é justamente essa expectativa por ofertas que abre espaço para golpes digitais, de sites falsos a anúncios que imitam lojas legítimas. E boa parte das vítimas só descobre a fraude semanas depois.

“O dado mais importante é que as reclamações de golpe só começam a aparecer após a Black Friday. O consumidor compra, espera, o prazo de entrega passa e então ele reclama”, afirma Felipe Paniago, CMO e cofundador do Reclame Aqui.

Quando isso acontece, já é tarde. Segundo Paniago, muitas vezes não há CNPJ nem empresa de verdade por trás da fraude, o que dificulta a identificação dos responsáveis e deixa o consumidor sem ter a quem recorrer. O caso acaba na esfera judicial e policial, e é raro recuperar o dinheiro.

Golpes mais comuns

Levantamento da Serasa divulgado em outubro de 2026 aponta os sites falsos como a principal modalidade de golpe na Black Friday, com 53%, seguidos pelas fraudes envolvendo Pix, com 42%.

Outra modalidade frequente é o phishing, que coleta informações pessoais e financeiras por meio de abordagens fraudulentas, segundo Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação. Os dados obtidos de forma irregular podem ser usados depois em outros crimes ou comercializados ilegalmente.

Em comum, esses golpes exploram a pressa. Os criminosos usam estratégias que criam um senso de urgência em torno da promoção. Diante de uma suposta boa oportunidade e com receio de perder um bom preço, muitas pessoas concluem a compra sem prestar atenção aos detalhes.

Reputação fabricada

Os esquemas mais elaborados vão além da criação de sites com aparência profissional. Segundo Paniago, algumas empresas falsas começam a construir uma reputação meses antes da data para convencer o consumidor de que são confiáveis.

“Os esquemas mais elaborados chegam a escolher alguém com influência, entregar o produto que ela comprou e fazer com que a pessoa crie uma confiança sobre a empresa e influencie outros consumidores”, afirma.

Uso da IA

Falsas promoções são um problema recorrente desde que a data chegou ao Brasil, em 2010. Mas a expansão do comércio eletrônico e o avanço da tecnologia ampliaram as possibilidades de fraude. Ferramentas de inteligência artificial (IA) passaram a facilitar a produção de anúncios, imagens e páginas que imitam lojas legítimas.

“A inteligência artificial potencializa essas práticas ao tornar as fraudes mais sofisticadas e convincentes, inclusive com a manipulação de imagens, áudios e vídeos de pessoas públicas para transmitir credibilidade”, diz Igreja.

Para o especialista, porém, a tecnologia é apenas uma ferramenta. O que os golpistas fazem é usar argumentos, situações e contextos para ocultar a fraude por trás desses elementos.

Identificar conteúdos gerados por IA também está mais difícil. Igreja reconhece que os sinais estão cada vez menos perceptíveis, mas aponta padrões que ainda ajudam a reconhecer imagens criadas pela tecnologia, como cores muito saturadas, imagens excessivamente coloridas e certas incongruências ou inconsistências.

Ele lembra que a mesma tecnologia usada para aplicar golpes também serve para combatê-los. Por isso, além das ferramentas de segurança, a conscientização é fundamental para identificar tentativas de fraude e evitar que elas se concretizem.

Como se proteger

O primeiro sinal de alerta é o tamanho do desconto. Ofertas muito superiores às praticadas pelo mercado devem levantar suspeita, sobretudo porque a Black Friday brasileira tem outra lógica. “A Black Friday no Brasil é diferente da dos Estados Unidos. É raro achar promoção de 80% ou 90%. Pesquise o preço antes e contente-se com descontos menores”, diz Paniago.

Antes de fechar a compra, vale também pesquisar a loja. O executivo recomenda verificar o histórico da empresa e a quantidade de opções de pagamento oferecidas. Para isso, o Reclame Aqui disponibiliza o recurso “Detector de Sites”, que mostra o tempo de atividade do endereço eletrônico, a localização da hospedagem e a existência de reclamações registradas. Nessa checagem, o cadeado na barra de endereço e o protocolo HTTPS não bastam: eles indicam que a conexão com o site é criptografada, mas não garantem que a loja seja legítima.

O caminho até a oferta também importa. Igreja recomenda priorizar os canais oficiais das empresas e não seguir links recebidos por e-mail, SMS ou outras mensagens, mesmo quando enviados por pessoas conhecidas. Na dúvida, a orientação é procurar a informação em um buscador e acessar o site oficial.

Outra alternativa é consultar as ofertas diretamente no aplicativo oficial da plataforma de comércio eletrônico, o que reduz o risco de cair em páginas fraudulentas. É preciso, porém, verificar se o próprio aplicativo é legítimo. Paniago pondera que, embora exista a possibilidade de apps falsos, todo aplicativo passa por uma triagem para entrar na Google Play ou na App Store. Além disso, ao buscar o nome correto da empresa, a indexação costuma mostrar o app verdadeiro primeiro. Por isso, a dica é baixar aplicativos apenas em lojas grandes e confiáveis.

Para Igreja, nenhuma dessas medidas substitui a atenção durante todo o processo de compra. “É preciso manter um olhar crítico e partir do pressuposto de que esse tipo de situação pode acontecer.”

O que fazer se cair em um golpe

Segundo o Banco Central, quem for vítima de golpe envolvendo Pix deve entrar em contato imediatamente com a instituição financeira e solicitar a devolução dos valores pelo Mecanismo Especial de Devolução (MED). O pedido pode ser feito em até 80 dias após a transação, mas a recuperação do dinheiro não é garantida. O órgão também recomenda registrar um boletim de ocorrência.

Outros problemas

Além das fraudes, os consumidores devem ficar atentos a outros problemas recorrentes na Black Friday: a prática enganosa de elevar o preço de um produto pouco antes da data promocional, os prazos de entrega, os produtos falsificados, o valor do frete e as condições de garantia.

Nesse cenário, a reputação pesa na decisão de compra. Pesquisas semanais do Reclame Aqui mostram que os consumidores valorizam a confiança nas empresas e podem preferir pagar um pouco mais para comprar de um estabelecimento em que confiam. “No fim, o barato sai caro, e a confiança é um grande diferencial na hora da venda”, diz Paniago.

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