O tombamento de um caminhão-tanque carregado de etanol, seguido de incêndio e pânico na BR-101, no trecho do Morro dos Cavalos, em Palhoça, reacendeu a discussão sobre a necessidade de um túnel na região.
Poderia ter sido uma tragédia de grandes proporções: cinco feridos, mais de 20 veículos incendiados e um rastro de destruição que por pouco não tirou vidas. A indignação é compreensível. Mas o episódio revela, mais uma vez, um vício antigo da política brasileira: transformar drama em espetáculo, sofrimento em palanque.
Há 25 anos se discute a construção deste túnel, e o Morro dos Cavalos sempre esteve no centro desse debate. Trata-se de uma obra de alta complexidade, que envolve estudos geológicos, planejamento, bilhões em investimentos e uma articulação que precisa ir muito além de vídeos nas redes sociais ou declarações inflamadas.
Infelizmente, após o acidente, muitos parlamentares catarinenses trataram o episódio não como um alerta técnico, mas como uma oportunidade política. Iniciou-se uma caça às bruxas sem a menor cautela ou empatia.
Não se pode, com honestidade, atribuir a causa do acidente diretamente às condições da rodovia. Estudos técnicos estão em andamento, e há indícios de que a imprudência ou imperícia humana possa ter sido determinantes. Mas isso não impediu parte da classe política de apontar o dedo para Brasília, responsabilizando, exclusivamente, o governo federal.
Sim, o Estado de Santa Catarina tem demandas históricas em infraestrutura. Mas não se pode ignorar que, apenas nos dois últimos anos, o governo federal quintuplicou os investimentos em rodovias catarinenses, superando os R$ 2 bilhões – algo jamais visto durante o governo anterior, cujas visitas ao Estado resultaram em promessas, não em obras. É desonesto usar o medo e a comoção popular como munição política.
A postura do governador Jorginho Mello, ao gravar vídeos com cobranças duras ao governo federal sem sequer dialogar com seus representantes que estiveram em solo catarinense, mostra mais interesse em confronto do que em solução. Obras de tamanha envergadura não se resolvem com discursos, mas com planejamento, cooperação e responsabilidade.
Santa Catarina é reconhecida por sua capacidade de união em momentos difíceis. Este deveria ser mais um deles. A construção do túnel no Morro dos Cavalos precisa ser pauta técnica, madura, conjunta – envolvendo União, Estado, municípios, parlamentares, sociedade civil e entidades de classe representativas. Só assim o projeto sairá do papel.
Politizar a dor, como se vê agora, é um desserviço. O Morro dos Cavalos não pode ser um comício. Precisa ser um símbolo de convergência. O protagonismo que dele deve emergir é o do bem comum – nunca o da vaidade política.