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mais do que restaurar, é escutar

Desabandonar não é apenas recuperar prédios antigos ou pintar fachadas desgastadas pelo tempo. Desabandonar é escutar. É reconhecer, nos silêncios das paredes descascadas e nas pedras gastas das ruas, os ecos da cidade que fomos — e que ainda pulsa em suas entranhas. É um gesto profundo de reconexão: com a história, com a memória e conosco mesmos.

Essa palavra me veio à mente ao assistir, dias atrás, a um documentário sobre a degradação da cidade de Paranaguá, com o nome — desabandonar — que me tocou de maneira especial. Ele carrega, embutida em suas sílabas, uma urgência que vai além da preservação física: uma urgência de escuta.

Paranaguá, mãe do Paraná, repousa em silêncio às margens do tempo. Seu corpo é feito de pedras e cal; suas veias, as ruas de paralelepípedos que ainda sustentam os passos daqueles que ousam andar devagar. Cada esquina, banhada de vento e sal, guarda segredos que o presente insiste em esquecer. Ali, o passado não está adormecido — apenas contido, à espera de quem o ouça com atenção.

Casarões de janelas cerradas e paredes marcadas pela negligência não falam, mas testemunham. As pedras do calçamento não gritam, mas carregam séculos de histórias em seus sulcos. São testemunhas silenciosas de partidas e reencontros, de transformações profundas, de tempos que escapam ao olhar apressado.

Desabandonar, portanto, é tornar-se intérprete desse silêncio. É oferecer nossa escuta, nossa voz, nossa presença. É ser ponte entre o que fomos e o que ainda podemos ser. É reatar laços com o tempo, permitir que a cidade antiga — que ainda conhece o som das rodas dos carros de boi e os passos das sinhás de saias rodadas — volte a se expressar.

Convido você, leitor, a, ao passar pelo Centro Histórico, parar diante daqueles prédios que atravessaram os mares do tempo, silenciar-se e apenas contemplar.

Ouça o sussurro de sua própria história. Deixe que ela fale com você e, assim, permita-se conectar com ela — e, só então, começar a amá-la.

Porque o tempo passa, sim, mas aquilo que foi verdadeiramente vivido não desaparece — apenas aguarda ser contado.
E que sejamos nós, então, a voz desses documentos que não têm boca, sentindo novamente a brisa que sopra da Ilha da Cotinga e atravessa, serena, o nosso Rio Itiberê, trazendo frescor e renovação.

Hamilton Ferreira Sampaio Junior

Viva a Velha Paranaguá.

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