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a Independência também se faz pela Constituição

Há datas que celebram a história. E há datas que nos obrigam a pensar sobre o país que estamos construindo.

O 7 de Setembro é uma delas.

Há 204 anos, o Brasil proclamava sua independência. Hoje, mais de dois séculos depois, talvez seja necessário perguntar:

-Independência de quê e para quem? Somos uma República verdadeiramente submetida às suas leis? Somos uma democracia em que o poder encontra limites? Ou estamos, pouco a pouco, nos acostumando à perigosa ideia de que a Constituição pode ser interpretada conforme a conveniência de quem detém o poder?

O Brasil precisa fazer as pazes com a sua Constituição.

Precisa aproximar-se dela, respeitá-la, cumpri-la e, sobretudo, protegê-la. E essa responsabilidade é de todos, mas não é igual para todos. Quem recebeu a missão institucional de guardar a Constituição carrega uma responsabilidade ainda maior.

A Constituição não é um ornamento da República. Não é um conjunto de palavras solenes destinado às cerimônias oficiais. É a Lei Maior. É o pacto que organiza o Estado, estabelece direitos, impõe deveres e, principalmente, limita o poder.

E talvez esteja justamente aí uma das grandes questões do nosso tempo, pois quem controla aqueles que controlam? Quem vigia os que receberam a missão de vigiar? Quem estabelece limites para aqueles que têm o dever de impor limites?

O Estado Democrático de Direito não sobrevive apenas porque existem Instituições. Ele sobrevive quando as Instituições respeitam os limites que justificam a própria existência delas.

Por isso, não basta interpretar a Constituição. É preciso interpretá-la à luz de seus princípios, de seus fundamentos, de seus pilares e de sua finalidade.

Não há espaço, numa República madura, para uma hermenêutica casuística, moldada para acomodar circunstâncias, interesses ou vontades.

Quando a interpretação passa a servir ao poder, em vez de o poder submeter-se à Constituição, alguma coisa essencial começa a ruir.

E quando as regras deixam de valer igualmente para todos, a República deixa de ser uma promessa de igualdade perante a Lei e passa a ser um território de privilégios.

É assim que a confiança se perde.

Primeiro, perde-se o respeito pela norma. Depois, perde-se a confiança nas Instituições.

Em seguida, instala-se a descrença na democracia. E, quando a sociedade deixa de acreditar que as Instituições são capazes de conter os excessos do próprio poder, abre-se uma perigosa avenida para o arbítrio, para a intolerância e para o “salve-se quem puder”.

Não é disso que o Brasil precisa.

O Brasil precisa de freios e contrapesos. Precisa de Poderes independentes, harmônicos e conscientes de que nenhum deles é dono da República. Precisa de Instituições fortes, mas, sobretudo, de Instituições responsáveis.

Porque força sem limite não é autoridade.

É abuso.

A República exige procedimentos. Exige respeito às formas. Exige decência no exercício do cargo. Exige que aqueles que ocupam posições de poder compreendam que a autoridade que lhes foi conferida não lhes pertence. É temporária, institucional e subordinada à Constituição.

O desvio praticado por quem exerce uma função pública não atinge apenas a norma que foi violada. Atinge o tecido social. E cada violação não reparada, cada excesso naturalizado e cada privilégio tolerado contribui para esgarçar a confiança dos brasileiros no próprio regime democrático.

Por isso, este 7 de Setembro precisa ser mais do que uma celebração da Independência.

Precisa ser um divisor de águas.

Um momento para que o Brasil decida se continuará tolerando a relativização das regras ou se voltará a tratar a Constituição como aquilo que ela efetivamente é: a maior autoridade jurídica da República.

A pergunta que fica não é apenas se somos uma nação independente.

É outra, muito mais profunda:

Somos uma nação constitucionalmente livre?

Os Poderes respeitam os limites que a Constituição lhes impõe?

As Instituições aplicam a mesma régua a todos?

Quem tem o dever de guardar a Constituição também se submete integralmente a ela?

E quando alguém ultrapassa esses limites, existe coragem institucional para reconhecer o erro e fazer valer a Lei?

O Brasil não precisa de donos.

Precisa de República.

Não precisa de salvadores.

Precisa de instituições.

Não precisa de poderes absolutos.

Precisa de limites.

E não precisa de uma Constituição admirada apenas nos discursos, nas solenidades e nos tribunais. Precisa de uma Constituição vivida.

Que cada Poder cumpra o seu papel.

Que cada instituição respeite sua competência.

Que cada autoridade compreenda a dimensão da responsabilidade que recebeu.

Que os excessos sejam corrigidos, os desvios apurados e, comprovadas as transgressões, que os responsáveis sejam punidos com o rigor que a lei determina sejam eles poderosos ou anônimos, aliados ou adversários.

Porque a República não pode ter dois pesos e duas medidas.

A Constituição não pode ser forte para alguns e flexível para outros.

Neste 7 de Setembro, talvez a maior demonstração de patriotismo não esteja apenas em vestir as cores do Brasil, hastear a bandeira ou cantar o Hino Nacional.

Talvez esteja em algo mais simples e mais difícil:

defender a Constituição mesmo quando ela contraria nossos interesses; defender a democracia mesmo quando o resultado nos desagrada; defender a República mesmo quando quem está no poder não é quem escolhemos.

Essa é a verdadeira maturidade democrática.

O Brasil já conquistou sua independência política.

Agora precisa reafirmar, todos os dias, sua independência institucional.

Porque quanto mais distante permanecermos da Constituição, mais próximos estaremos do caos.

E quanto mais fielmente a respeitarmos, mais forte será a República.

Neste 7 de Setembro, que o Brasil não apenas celebre a sua independência.

Que reafirme sua liberdade sob a lei.

Que a bandeira represente a Nação.

Que o Hino represente o seu povo.

E que a Constituição continue sendo o limite intransponível de todo poder.

O Brasil quer. A Nação exige. A República precisa.

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