A saúde pública do Distrito Federal não chegou ao colapso por acidente. O que se vê hoje é a consequência direta de um modelo de gestão que optou, com todas as letras, por abandonar o serviço público universal e transparente em favor de uma estrutura paralela, terceirizada, blindada e alheia ao controle social.
Esse modelo começou a ser desenhado no apagar das luzes do governo Rodrigo Rollemberg, com a criação do Instituto Hospital de Base do Distrito Federal (IHBDF), em julho de 2017. A justificativa era “modernizar” a gestão do Hospital de Base, com maior autonomia administrativa e financeira. Na prática, foi a semente de uma estrutura que, pouco depois, cresceria descontroladamente.
Foi já em 2019, sob o governo Ibaneis Rocha, que o instituto ganhou contornos de um verdadeiro Estado dentro do Estado. Rebatizado como Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (Iges-DF), por força da Lei nº 6.270/2019, o instituto passou a controlar não apenas o Hospital de Base, mas também o Hospital Regional de Santa Maria e todas as UPAs do DF. Recebeu status de gestor central da saúde pública, com orçamento bilionário, sem licitação, sem fiscalização efetiva, e com margem para práticas administrativas que ignoram princípios básicos da administração pública.
De lá pra cá, o que se assistiu foi a consolidação de uma máquina paralela, voraz por contratos, generosa com aliados, opaca em suas contas e ineficaz na ponta. As denúncias não tardaram. Houve casos de compras superfaturadas, empresas de fachada, contratos mal explicados, indicações políticas para cargos técnicos, gastos obscenos com alimentação, denúncias de nepotismo e salários de alto escalão que envergonhariam o setor privado. O Tribunal de Contas do DF e o Ministério Público apontaram dezenas de irregularidades, e mesmo assim, o governo do DF continuou despejando bilhões no instituto como se fosse normal.
Enquanto isso, a rede pública tradicional de saúde se esfacelava. As unidades geridas diretamente pela Secretaria de Saúde passaram a funcionar em estado de abandono. Faltam médicos, insumos, equipamentos, infraestrutura e respeito com os profissionais concursados, que assistem ao sucateamento das unidades e ao desmonte do serviço público sob a retórica da “eficiência privada”. UPAs operam com pacientes nos corredores, e a fila para uma simples consulta especializada pode demorar meses. Em 2024, o Distrito Federal foi o campeão nacional em mortes por dengue, e isso não se explica apenas por azar climático, mas por gestão desorganizada e ausência total de ações preventivas.
Em 2025, o colapso é cotidiano. A cada dia, surgem relatos de gente que morre esperando atendimento, profissionais sobrecarregados, remédios em falta e promessas vazias. O governo, diante desse cenário, não só não recua, como amplia a terceirização. Recentemente, mais unidades foram entregues ao Iges, em um ciclo vicioso de irresponsabilidade administrativa.
Não se trata aqui de discutir modelos apenas por ideologia. Trata-se de fazer contas, de comparar resultados, de observar consequências. A saúde pública foi transformada em balcão de negócios, e quem paga essa conta é o cidadão comum, que acorda de madrugada para tentar uma ficha, que espera horas na UPA, que enterra seus entes queridos vítimas do descaso, tudo isso enquanto o orçamento bilionário escorre para dentro de contratos mal explicados.
Não se combate esse estado de coisas com marketing institucional, nem com visitas a hospitais feitas por ocasião de crise. Combate-se com coragem para rever prioridades, com retorno à gestão pública direta, com concurso para profissionais da saúde, com atenção básica fortalecida, com planejamento de longo prazo e, sobretudo, com transparência.
O que se vive hoje no Distrito Federal não é um problema de saúde, é um problema de governo.
As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião do Veronoticias.com