Na última terça-feira, ao passar pelo Eixão, pude ver quilômetros inteiros de uma das vias mais importantes de Brasília completamente às escuras, com mais de dez postes apagados em sequência. Logo adiante, em um trecho do Eixinho, observei três postes piscando sem parar. Ao entrar em uma das quadras do Plano Piloto, havia uma praça com parquinho, quadra de esportes e equipamentos de exercícios totalmente mergulhada na escuridão, com mais de quatro postes apagados. Essas cenas não são exceção, fazem parte do cotidiano de quem vive na capital e mostram que o problema da falta de iluminação pública atingiu um nível grave raramente visto na história da nossa cidade.
A luz que falta e a insegurança que cresce
A iluminação pública é frequentemente relegada a um papel secundário no debate sobre infraestrutura urbana. No entanto, evidências científicas e experiências internacionais mostram que a luz nas ruas é uma das mais eficazes ferramentas de prevenção situacional do crime. Metanálises apontam que intervenções de iluminação estão associadas a uma queda média de 14% nos crimes totais, com reduções ainda maiores em crimes patrimoniais (21%). Em cidades como Nova York, a instalação de torres de luz reduziu em 36% os crimes noturnos. Em Londres, bairros com iluminação adequada registraram 29% menos furtos residenciais do que áreas sem esse recurso.
O efeito não é apenas estatístico: a percepção de segurança entre mulheres em pontos de ônibus aumenta em até 40% com iluminação adequada. Ruas bem iluminadas atraem mais pedestres e criam ciclos virtuosos de ocupação e vigilância, enquanto locais escuros têm taxas de criminalidade 2,3 vezes superiores à média municipal. Além disso, a iluminação pública reduz em 65% os acidentes fatais noturnos e, em rodovias brasileiras, a implantação de postes LED diminuiu atropelamentos em 41%.
Desigualdade luminosa: quem fica no escuro?
Dados oficiais da CEB Ipes obtidos pelo mandato do Deputado Fábio Félix indicam que, entre março de 2024 e abril de 2025, regiões centrais como Plano Piloto receberam 58,7 luminárias LED por mil habitantes, enquanto áreas periféricas como Fercal e São Sebastião receberam menos de uma luminária por mil habitantes. Ceilândia, a mais populosa do DF, sequer registrou novos pontos de iluminação no período analisado, apesar de liderar em número de solicitações por falhas.
Essa disparidade não é apenas numérica: ela reforça desigualdades históricas no acesso à infraestrutura urbana, deixando justamente as regiões mais vulneráveis ainda mais expostas à violência e ao abandono. A escuridão, nesses casos, não é apenas física, mas social.
O problema das falhas de iluminação pública no DF não é apenas um incômodo cotidiano, é uma questão de segurança, de saúde pública, de mobilidade e de justiça social. A luz nas ruas deve ser tratada como prioridade no planejamento urbano, orientada por critérios de equidade e eficiência, e não como um luxo reservado a poucos bairros centrais.
Enquanto persistirem trechos inteiros às escuras, praças abandonadas e regiões periféricas negligenciadas, Brasília continuará sendo uma cidade onde a escuridão serve de metáfora para a desigualdade e para a omissão do poder público. É hora de iluminar não só as ruas, mas também o debate sobre o direito de todos a uma cidade segura, acessível e acolhedora.
O Deputado Fabio Felix disponibilizou uma campanha em defesa da iluminação pública com espaço para denúncias de falta de iluminação nos territórios.
As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião do Veronoticias.com