A doença de Newcastle chegou à avicultura catarinense antes do período de maior procura pelo peru de Natal. Mas a atualização de terça-feira (20) trouxe uma diferença importante entre o tamanho do foco sanitário e o alcance das primeiras barreiras comerciais.
A China suspendeu a importação de carne de aves somente de Santa Catarina e manteve abertas as compras dos demais estados brasileiros. O Chile também restringiu produtos catarinenses. O México, por outro lado, decidiu fechar o mercado para produtos avícolas provenientes de todo o Brasil.
O pior cenário, uma suspensão chinesa contra todo o país, foi evitado após a negociação conduzida pelo Ministério da Agricultura e Pecuária. É uma primeira vitória diplomática. Para Santa Catarina, no entanto, a conta continua aberta.
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China reconhece a regionalização
O protocolo sanitário entre Brasil e China previa a interrupção das exportações diante da confirmação de um foco da doença de Newcastle. A dúvida era saber se Pequim bloquearia as compras de todo o Brasil, de Santa Catarina ou apenas da região atingida.
A decisão chinesa foi limitar a restrição ao Estado onde ocorreu o foco. Segundo o Ministério da Agricultura, “a atuação do Mapa permitiu evitar a suspensão das importações provenientes de todo o território nacional”.
O resultado preserva os embarques dos demais estados e mostra a importância da regionalização sanitária: um problema localizado não precisa fechar automaticamente as portas para toda a produção brasileira.
O Brasil possui 61 estabelecimentos habilitados a vender carne de frango para a China. O país asiático respondeu por aproximadamente 10% das exportações brasileiras do produto entre janeiro e setembro, com 420 mil toneladas adquiridas.
A restrição, portanto, continua relevante. Mas ficou muito abaixo do impacto que teria um bloqueio nacional.
México fechou o mercado brasileiro
O México tomou uma decisão mais ampla. Foram suspensas as importações provenientes de todo o Brasil de aves vivas, carnes e miúdos de aves, ovos férteis, pintinhos de até três dias e aves canoras, ornamentais ou de rapina destinadas à comercialização, além de aves de companhia. O país foi o sétimo maior destino da carne de frango brasileira em 2025, com a compra de 244,39 mil toneladas.
O Chile adotou um caminho intermediário e limitou as restrições a Santa Catarina. A medida alcança ovos férteis, ovos livres de patógenos específicos, pintinhos de um dia, aves ornamentais, carne fresca, ovos para consumo e produtos que contenham carne fresca de aves.
Temos, portanto, três respostas diferentes para o mesmo foco: o México fechou o país, enquanto China e Chile fecharam o Estado. É nessa diferença que a diplomacia sanitária brasileira precisa trabalhar.
O foco foi encontrado antes dos sintomas
O vírus foi identificado em uma granja comercial com aproximadamente 6 mil perus de corte em Nova Itaberaba, no Oeste catarinense.
Nenhuma ave apresentava sintomas clínicos ou mortalidade. A presença do vírus foi detectada durante o trabalho de vigilância ativa da Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina, a Cidasc.
As amostras foram analisadas pelo Laboratório Federal de Defesa Agropecuária de São Paulo, que confirmou o resultado. A propriedade foi interditada, a movimentação de animais foi suspensa e as aves não entraram na cadeia de consumo. O protocolo inclui o sacrifício sanitário, a limpeza e a desinfecção das instalações.
A presidente da Cidasc, Celles Regina de Matos, reforçou que a detecção ocorreu antes do aparecimento da doença nas aves. “Vírus esse que não desenvolveu a doença, foi apenas confirmada a presença. As aves não estão tendo sintomas e nem mortalidade”, afirmou.
A descoberta precoce não elimina a gravidade sanitária, mas comprova que o sistema de vigilância funcionou.
Emergência em quatro municípios
O governo federal declarou emergência zoossanitária por 60 dias em Nova Itaberaba, Águas Frias, Coronel Freitas e Nova Erechim. A medida permite acelerar a mobilização de equipes, o controle do trânsito de animais, a coleta de amostras e as demais ações de contenção.
Ao todo, 133 granjas estão na área de monitoramento. A Cidasc afirma que as equipes estão mobilizadas em conjunto com o Ministério da Agricultura, o governo estadual e a cadeia produtiva para conter e eliminar o foco.
Produtores também foram orientados a intensificar os cuidados de biosseguridade e comunicar imediatamente qualquer sinal respiratório, neurológico ou ocorrência de mortalidade elevada e repentina nas aves. Agora, cada propriedade funciona como parte da barreira sanitária.
A Bolsa fez a primeira conta
O mercado financeiro reagiu antes da definição sobre o tamanho das restrições comerciais. As ações da MBRF, dona das marcas Sadia e Perdigão e com forte presença no mercado de perus, caíram mais de 4% na segunda-feira. Os papéis da JBS, listados nos Estados Unidos, recuaram cerca de 1%.
Analistas consideram que o impacto tende a ser limitado, se o foco for rapidamente eliminado e os mercados reabertos. No episódio registrado no Rio Grande do Sul em 2024, as exportações brasileiras de frango caíram aproximadamente 25%, ou cerca de 100 mil toneladas, no mês atingido pelas restrições. Depois, os embarques se recuperaram com a reabertura dos mercados.
O risco maior não está apenas na intensidade da suspensão, mas na duração. Quanto mais tempo um mercado permanece fechado, maior a necessidade de redirecionar produtos para outros países ou para o consumo interno. Esse movimento aumenta a oferta, pressiona preços e reduz as margens dos frigoríficos e dos produtores integrados.
Santa Catarina tem bilhões em jogo
Nos primeiros sete meses de 2026, Santa Catarina exportou 760,7 mil toneladas de carne de frango, com receitas de US$ 1,62 bilhão. O Estado respondeu por 22,6% do volume e 24,7% do faturamento das exportações brasileiras do produto no período.
A avicultura catarinense envolve produtores integrados, cooperativas, frigoríficos, fábricas de ração, transportadores e milhares de empregos no interior. Por isso, uma suspensão limitada a Santa Catarina é melhor do que um embargo nacional, mas está longe de ser uma notícia pequena para a economia estadual.
A prioridade agora é evitar novos focos e reunir evidências técnicas para que China e Chile reabram os mercados catarinenses o mais rapidamente possível.
E o peru de Natal?
A confirmação em uma granja de perus, na aproximação do período de Natal, naturalmente provoca preocupação entre os consumidores.
Mas não há, neste momento, indicação de falta do produto ou risco relacionado ao consumo. As aves da propriedade atingida não foram enviadas para o abate nem entraram no mercado. O consumo de carnes de aves e ovos provenientes de estabelecimentos fiscalizados permanece seguro.
A orientação é observar nas embalagens a presença dos selos de inspeção municipal, estadual ou federal.
Também não se pode confundir restrição às exportações com escassez no mercado interno. Se os embarques forem interrompidos por muito tempo, parte da produção pode ser redirecionada ao Brasil. Nesse cenário, o problema tende a aparecer primeiro na renda da cadeia produtiva, não na falta de peru para a ceia.
O alerta continua ligado
A negociação com a China evitou que um foco localizado em Santa Catarina fechasse o principal mercado da carne de frango para todo o Brasil, mas a restrição ao Estado permanece, o México suspendeu as compras nacionais e novos parceiros ainda podem revisar seus protocolos.
A defesa sanitária precisa eliminar o foco. A diplomacia precisa encurtar os bloqueios. E o setor produtivo precisa reforçar a biosseguridade dentro de cada granja. O vírus foi encontrado antes dos sintomas. Agora, a resposta precisa chegar antes que as restrições comerciais contaminem uma cadeia inteira.
O alerta chegou antes do período que antecede o Natal. A boa notícia é que, desta vez, a vigilância também chegou antes da doença.