Maior manifestação religiosa do Sul do Brasil busca o título de Patrimônio Cultural Imaterial para garantir proteção histórica.
A tradicional Festa de Nossa Senhora do Rocio, realizada anualmente em novembro em Paranaguá, movimenta milhares de fiéis com uma extensa programação de missas, romarias e procissões. Atualmente, esse importante conjunto de práticas religiosas e memórias está em processo de avaliação pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional para se tornar Patrimônio Cultural Imaterial.
Avanço na pesquisa e entrega de documentos
O pedido de reconhecimento avançou após um anúncio oficial realizado em agosto, durante a apresentação da edição festiva. Na ocasião, representantes do instituto federal e da Universidade Federal do Paraná repassaram o Termo de Execução Descentralizado, documento que encerrou um ciclo de estudos antropológicos e historiográficos iniciados em dezembro de 2021 com o repasse de R$ 100 mil em verbas públicas.
O Santuário busca o título não apenas pelo valor histórico, mas também como uma salvaguarda contra o avanço urbano na região.
“Hoje, nós temos vários desafios aqui no Santuário. Estamos no meio da região portuária e isso é um dificultador, porque cada vez mais o porto está tomando conta de onde antes era área residencial. O reconhecimento nos dá uma segurança. Significa que é uma festa tradicional que acontece aqui, ou seja, não pode ser mudada de lugar ou de formato, por exemplo”, observou o reitor do Santuário de Nossa Senhora do Rocio, padre Dirson Gonçalves.
Critérios rigorosos e prazos do processo
Para alcançar o status de patrimônio nacional, a festividade precisa comprovar relevância para a identidade brasileira, além de demonstrar continuidade histórica e a transmissão de saberes entre gerações. Com mais de duzentos anos de história, a celebração paranaense chega a reunir cerca de 100 mil pessoas em seu ponto alto, quando a imagem da padrono é levada até a Catedral Diocesana Nossa Senhora do Rosário.
Em nota oficial, o Iphan esclareceu que a documentação encontra-se na etapa de instrução de registro.
“É um procedimento longo e criterioso, que envolve a elaboração de estudos técnicos, emissão de pareceres, realização de consulta pública e, por fim, a votação pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, órgão colegiado de decisão máxima”, informou.
Devido à complexidade dos trâmites, o órgão federal não divulgou prazos para a conclusão da análise.
Impacto cultural e inspirações nacionais
Caso seja aprovado, o título poderá fomentar ações de preservação cultural e fortalecer a ligação com o Centro Histórico da cidade, protegido desde 2009. Organizadores e devotos frequentemente comparam a grandiosidade do evento ao Círio de Nazaré, em Belém, celebrado como referência nacional desde 2004 e que movimenta bilhões na economia paraense.
O litoral paranaense já conta com outras manifestações consagradas, a exemplo do Fandango Caiçara, reconhecido em 2012, além da Roda de Capoeira. Outras expressões locais, como as Folias Caiçaras do Divino Espírito Santo e as Práticas da Canoa Caiçara, também aguardam análise preliminar no órgão competente.
Próxima edição e expectativas de público
Enquanto o veredito oficial não é emitido, a organização prepara a 213ª edição da festividade estadual, marcada para ocorrer entre os dias 6 e 16 de novembro. O evento antecede o Jubileu de Ouro do título de Padroeira do Paraná, outorgado pelo Papa Paulo VI em 1977.
A programação contará com novenários, trocas de manto e a tradicional procissão de 15 de novembro, além de shows de artistas nacionais como João Neto & Frederico, Grupo Tradição e Anjos de Resgate. A expectativa da organização é atrair mais de 500 mil visitantes ao longo de toda a temporada festiva.