Albert Camus, com a elegância irritante dos que têm razão, observou que o homem é a única criatura que se recusa a ser o que é. O leão não acorda querendo ser gazela. A barata, e aqui peço respeito, porque a barata sobreviveu a tudo, inclusive a nós, não passa a noite em claro pensando em ser borboleta. Só o homem acorda de manhã, olha no espelho e decide que aquele sujeito de lá não presta.
E assim começa mais um dia de representação.
Somos, todos nós, atores de uma peça cujo roteiro mudamos a cada cena, conforme a plateia. Com a família, somos um personagem. Com os amigos, outro. No trabalho, um terceiro, geralmente o mais mentiroso dos três. Nas redes sociais, então, somos uma obra de ficção científica: criaturas sem defeitos, sem dúvidas, sem barriga e sem segunda-feira ruim.
O problema é que sustentar mentira dá trabalho. Dá muito mais trabalho do que a verdade. A verdade você conta uma vez e pronto. A mentira e a máscara, são sempre uma mentira bem vestida. Precisam de manutenção permanente, revisão periódica e um arquivo mental impecável para não se contradizerem na próxima esquina. É um emprego de tempo integral, sem férias, sem décimo terceiro e com altíssimo risco de demissão sumária.
Porque a máscara cai. Sempre cai. Pode demorar um mês, um ano, uma década, mas a gravidade moral é implacável: o que sobe, desce; o que é falso, aparece. E quando cai, e aqui Camus provavelmente tomaria um conhaque antes de continuar, dói. Dói com a dor específica e humilhante de quem foi pego sendo quem sempre foi.
A negação de si mesmo não é apenas uma opção estética, um capricho existencial de quem tem tempo sobrando. É uma forma de autoagressão sofisticada, a única que a sociedade aplaude. Elogiamos quem “se reinventa” — expressão contemporânea para quem abandonou a própria essência em busca de aprovação alheia. Chamamos isso de crescimento. Às vezes é. Frequentemente, é fuga com nome bonito.
Aceitar quem se é, com as imperfeições, as contradições e os medos que não cabem no currículo, é o ato mais subversivo que um ser humano pode praticar neste século. É mais difícil do que escalar montanhas e mais raro do que honestidade em campanha eleitoral.
Poder olhar no espelho sem negociar com o reflexo é uma conquista que nenhuma conta bancária compra e nenhuma rede social replica. É silenciosa, é íntima, e é gratuita. O que, convenhamos, a torna completamente suspeita aos olhos do mercado.
O homem é a única criatura que se recusa a ser o que é, disse Camus.
Pois bem. Já passou da hora de discordar de nós mesmos sobre nós mesmos.
A quietude de ser, sem máscara, sem performance, sem o esgotamento de ser outro, não é resignação. É, talvez, a única forma de liberdade que ainda não colocamos à venda.
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