A primeira Pesquisa Nacional de Saúde Mental (PNSM-Brasil) está na etapa de coleta de dados em campo e já realizou atividades em 197 municípios de 26 unidades federativas. Ao todo, foram alcançados 619 setores censitários em diferentes regiões do país. O levantamento reúne informações sobre as condições de saúde mental da população adulta, fatores associados ao sofrimento psíquico, desigualdades sociais e acesso aos serviços de cuidado.
Até 28 de agosto, foram realizadas 1.011 entrevistas completas, segundo a equipe técnica responsável pelo estudo. O plano amostral prevê a abordagem de 1.626 setores censitários e 16.260 domicílios, com expectativa de aproximadamente 10 mil entrevistas válidas ao final da coleta.
A pesquisa considera a população com 18 anos ou mais, tendo como referência, para a definição da população e do desenho amostral, os parâmetros adotados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A seleção dos participantes ocorre por amostragem probabilística, em etapas que envolvem municípios, setores censitários, domicílios e moradores.
A pesquisa é coordenada pelo Ministério da Saúde, em parceria com a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), responsável pela execução técnico-científica do estudo. A coleta de dados iniciou em março de 2026.
Em Paranaguá, rede conta com serviços especializados
A discussão sobre saúde mental também envolve a estrutura disponível nos municípios para atender pessoas que necessitam de acompanhamento. Em Paranaguá, a rede pública conta com o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Solar dos Girassóis e com o Ambulatório de Saúde Mental Risoaldo Severino de Moura.
Para atendimento em saúde mental, a Rede de Atenção Psicossocial de Paranaguá é composta pelas unidades básicas de saúde, por um Centro de Atenção Psicossocial e um Ambulatório de Saúde Mental. Assim como a rede de urgência e emergência constituída pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) que conta, por sua vez, com o suporte do Hospital Regional do Litoral.
O CAPS Solar dos Girassóis completou 19 anos de atuação em agosto de 2026. Segundo a Prefeitura, o serviço realiza acolhimento, escuta e acompanhamento e desenvolve atividades de convivência, fortalecimento de vínculos e estímulo à autonomia de usuários e familiares. O trabalho inclui atendimentos, oficinas, atividades coletivas e ações de integração. O coordenador do CAPS, psicólogo Wilson Silva, explica que as atividades coletivas têm papel importante no trabalho desenvolvido pelo serviço. Segundo ele, esses momentos criam oportunidades de socialização, fortalecem vínculos e ajudam os usuários a ocupar um espaço de participação ativa no próprio processo de cuidado. “A convivência fortalece vínculos, estimula a autonomia e cria um sentimento de pertencimento. São experiências que contribuem para que o usuário se reconheça como parte da comunidade e participe ativamente do seu processo de cuidado”, afirma Wilson Silva. No “Solar dos Girassóis”, o cuidado em saúde mental é construído respeitando os diferentes ritmos, necessidades e limites de cada usuário. Por isso, as atividades desenvolvidas procuram garantir um ambiente acolhedor, seguro e inclusivo.
A proposta é transformar o CAPS em um espaço de convivência e pertencimento, onde o usuário possa ser ouvido, participar, criar vínculos e desenvolver sua autonomia. Nesse contexto, os momentos de integração e as atividades coletivas complementam o acompanhamento realizado pelas equipes.
Já o Ambulatório de Saúde Mental Risoaldo Severino de Moura funciona em sede própria desde dezembro de 2024, na Rua Itamarandiba, 29, no Jardim Santos Dumont. A unidade integra a Rede de Atenção Psicossocial e atende pessoas com transtornos mentais de gravidade moderada. O espaço possui seis consultórios. Quando a nova sede foi inaugurada, a Prefeitura informou que aproximadamente 650 pacientes eram atendidos pelo ambulatório. A equipe era formada por psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais, com atendimentos individuais e projetos voltados a atividades em grupo, prevenção e informação sobre saúde mental.
Relatórios da Secretaria Municipal de Saúde também registram ações relacionadas à saúde mental desenvolvidas em unidades básicas, incluindo atividades de conscientização e reuniões de alinhamento com o CAPS.
Paranaguá também está estudando a ampliação da estrutura destinada à saúde mental. Em 2026, a Prefeitura informou que o Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPS IJ) permanecia em construção. A unidade será voltada ao atendimento de crianças e adolescentes.
Coleta é realizada nos domicílios
Na pesquisa nacional, a coleta da PNSM-Brasil é realizada por equipes que visitam os domicílios selecionados pela amostra. Entre os desafios identificados durante o trabalho de campo estão a recusa de participação e a necessidade de esclarecer dúvidas sobre a pesquisa.
Parte dos moradores abordados relata desconhecer o levantamento e busca confirmar a legitimidade da atividade antes de responder à entrevista. A preocupação em fornecer informações pessoais a entrevistadores também pode estar relacionada ao contexto de golpes e fraudes. Os pesquisadores observam ainda que o estigma associado aos temas de saúde mental pode influenciar a disposição de algumas pessoas em conversar sobre suas experiências.
Durante a abordagem, os moradores recebem informações sobre a pesquisa e sobre a atividade realizada pelas equipes. O reconhecimento do levantamento por serviços de saúde, gestores locais, lideranças comunitárias e meios de comunicação pode contribuir para esclarecer dúvidas sobre a coleta realizada nos municípios selecionados.
Dados serão analisados após a coleta
Após a conclusão da coleta de dados, as informações serão submetidas a procedimentos de consistência, ponderação amostral e análise estatística.
A pesquisa pretende produzir informações nacionais que permitam analisar diferentes aspectos da saúde mental da população adulta, incluindo a ocorrência de transtornos mentais, fatores associados ao sofrimento psíquico, condições sociais e econômicas e acesso ao cuidado.
Os resultados poderão contribuir para ampliar o conhecimento sobre a saúde mental da população brasileira e subsidiar o planejamento de políticas públicas e da Rede de Atenção Psicossocial no país.
O que será investigado
A PNSM-Brasil investiga a ocorrência de transtornos mentais na população adulta e sua relação com diferentes condições sociais e econômicas. Entre os aspectos analisados estão experiências de violência, situações traumáticas, desigualdades sociais e vulnerabilidades econômicas.
O levantamento também busca identificar barreiras relacionadas ao acesso aos serviços de saúde mental. As informações produzidas poderão subsidiar análises sobre as necessidades de cuidado da população e contribuir para o planejamento e o monitoramento de ações de saúde mental no Sistema Único de Saúde (SUS).
Os dados poderão ainda apoiar o acompanhamento de indicadores de saúde mental e a organização da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), considerando as características e necessidades identificadas na população brasileira.
Segundo Letícia Cardoso, diretora de Análise Epidemiológica e Vigilância de Doenças Não Transmissíveis do Ministério da Saúde, os dados da pesquisa poderão ampliar o conhecimento sobre a situação de saúde mental no país e contribuir para o planejamento das ações de cuidado. “A pesquisa também poderá servir como linha de base para o acompanhamento de indicadores de saúde mental ao longo do tempo, contribuindo para a organização da rede de cuidado e para as estratégias de vigilância em saúde mental no país”, afirma.