Empresários têm buscado crédito mesmo contando com dinheiro disponível em caixa. Em um cenário de com juros elevados, a tendência esperada seria que estas empresas utilizassem recursos próprios para evitar uma dívida. Porém, na prática o mercado tem percebido que médias e grandes empresas vem buscando novas formas de financiamento visando preservar liquidez e viabilizar investimentos.
No acumulado de 12 meses até junho de 2026, a demanda por crédito para empresas cresceu 7,4% entre médias empresas e 7,8% entre grandes companhias. O movimento ocorre enquanto 56% das empresas industriais pretendem investir em 2026, sendo que 34% planejam ampliar a capacidade produtiva e 31% iniciar novos projetos.
Por outro lado, dados do setor apontam que 62% das empresas afirmam que irão utilizar somente recursos próprios. Para Priscila Freitas, CRO da Multiplike, uma empresa pode ter recursos suficientes para bancar um projeto e, ainda assim, optar pelo crédito para empresas a fim de não comprometer toda a liquidez.
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“O crédito para empresas passa a ter um papel estratégico quando a empresa não olha apenas para a necessidade de dinheiro, mas para a composição do seu capital. O objetivo é encontrar uma estrutura compatível com a geração de caixa e com o período de maturação daquele investimento”, afirma Priscila.
Para Priscila Freitas, CRO da Multiplike, disponibilidade de caixa não significa necessariamente que utilizar todo esse recurso seja a alternativa mais eficiente para financiar uma expansão. Foto: DivulgaçãoA estratégia é relevante ainda mais em projetos que demandam investimentos altos antes de gerarem receitas, por exemplo, no caso de implantação de uma nova fábrica, investimentos em máquinas ou ampliação da capacidade produtiva.
“O ponto não é substituir capital próprio por dívida. É definir qual combinação permite à empresa investir sem perder flexibilidade financeira”, diz a CRO.
Na empresa em que atua, a procura pela liquidação de operações mantidas em outras instituições para migração das dívidas cresceu aproximadamente 22% em 2026. Um movimento, que para Priscila, está relacionado principalmente à busca por prazos e estruturas de garantias mais adequadas.
Como juros altos mudam a conta do investimento
Em um momento em que empresas querem seguir expandindo, mas precisam equilibrar investimento, capital de giro e endividamento, especialistas apontam que nem sempre a escolha é entre usar o caixa ou tomar crédito. Um fator importante a ser considerado antes de assumir uma nova dívida é a taxa de juros.
Rodrigo Grossi, COO da Humu, ressalta que o aumento da procura por crédito para empresas em um ambiente de juros elevados não deve ser interpretado como sinal de confiança na economia.
Segundo o especialista, parte das empresas pode estar recorrendo ao crédito por ter perdido a capacidade de financiar a operação com recursos gerados pelo negócio. Entre os sinais apontados estão a inadimplência dos clientes, a redução do ritmo de vendas e a dificuldade de fazer o estoque girar.
“Para ter certeza que uma empresa está tomando crédito do jeito certo, você tem que olhar muito para a margem de lucro dela, tem que olhar para a velocidade de vendas e analisar o volume de vendas que a empresa tem. É basicamente olhar para o caixa”, comenta Grossi.
Antes de tomar crédito para investir, ele pondera que a empresa também precisa avaliar se o retorno esperado do projeto é suficiente para compensar o custo do dinheiro.
Em um exemplo citado pelo especialista, uma empresa com margem de lucro de 20% que contrata crédito a 21% teria uma operação deficitária. Já um negócio com margem de 30% poderia comportar uma dívida com custo de 20% ou 21%, desde que os demais custos fixos também sejam considerados.
Para Rodrigo Grossi, COO da HUMU, empresas com margens apertadas que recorrem a crédito caro podem estar em situação de risco, mas o endividamento também pode fazer parte de uma estratégia de crescimento.Foto: Divulgação“Preservar liquidez em cenário incerto é uma decisão financeira legítima, desde que exista capacidade de pagamento e um uso definido para o recurso. O risco aparece quando o crédito passa a substituir receita e não a antecipar investimento”, explica Priscila.
Quando o crédito para empresas vira um sinal de alerta
Priscila analisa que para as empresas a dívida deixou de ser tratada como um recurso de emergência e passou a ser vista como parte do planejamento financeiro. Um dos pontos considerados é a busca por alternativas que permitam combinar volume, prazo e garantias de acordo com o fluxo de caixa.
“A pergunta que se faz hoje não é se vale tomar crédito para a empresa, mas qual prazo e qual garantia faz a operação caber no fluxo de caixa”, pontua.
Na visão da executiva, uma reorganização saudável precisa resultar em uma mudança estrutural, como custo, prazo ou garantias. Se uma nova operação apenas serve para pagar a anterior, sem resolver a origem do desequilíbrio, o problema apenas é transferido para frente. A necessidade de repetir esse processo em intervalos curtos seria um dos principais sinais de alerta.
“Quando todo o caixa é direcionado para um projeto cujo retorno virá apenas no futuro, a companhia pode limitar sua capacidade de reagir a outras necessidades. O crédito estruturado para empresas pode distribuir esse desembolso no tempo, desde que prazo, garantias e capacidade de pagamento estejam alinhados à geração de caixa”, conclui.