A BYD ainda é uma fabricante chinesa, mas uma parcela cada vez maior de seus carros encontra compradores fora da China. Os resultados divulgados nesta sexta-feira (28) mostram uma mudança importante no perfil dos negócios da empresa: as exportações cresceram 71% no primeiro semestre de 2026, superaram 790 mil veículos e já representam 44% das vendas da fabricante. É um salto considerável para uma companhia que até poucos anos atrás mantinha praticamente toda a operação concentrada em seu mercado doméstico.
Na prática, de cada dez carros comercializados pela BYD, mais de quatro já são vendidos em outros países. A expansão ajuda a entender por que mercados como Brasil, Europa, México e Sudeste Asiático ganharam espaço nos planos da fabricante, com direito a fábricas, centros de desenvolvimento, navios próprios para transporte de veículos e produtos desenvolvidos para atender características específicas de cada região. A BYD não está simplesmente exportando mais carros chineses: está montando uma estrutura industrial e comercial fora de seu país de origem.
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Há também uma razão econômica para acelerar esse processo. O maior mercado automotivo do mundo atravessa uma disputa intensa de preços, especialmente entre fabricantes de carros eletrificados. BYD, Geely, Chery, SAIC e dezenas de empresas locais brigam por participação enquanto novos concorrentes, como Xiaomi, aumentam a pressão sobre fabricantes tradicionais e marcas que até pouco tempo dominavam segmentos importantes.
A própria BYD sentiu os efeitos desse cenário. A receita caiu 3,2% no segundo trimestre, embora o lucro líquido tenha voltado a crescer depois de quatro trimestres consecutivos de queda. O resultado líquido chegou a 8,3 bilhões de yuans, aproximadamente US$ 1,22 bilhão. Ao mesmo tempo, a margem bruta das operações internacionais alcançou 22%, mostrando que vender fora da China passou a ter peso relevante não apenas em volume, mas também nos resultados financeiros da companhia.

Navio da BYD chega ao Brasil novamente com Dolphin, Yuan e Song
Foto de: BYD
Esse cenário ajuda a colocar as 790 mil exportações em outra perspectiva. A internacionalização deixou de representar apenas a ambição de transformar a BYD em uma fabricante global e passou a ter importância direta na sustentação do crescimento da empresa. Com um mercado chinês extremamente competitivo, aumentar a presença internacional tornou-se uma alternativa para buscar novos consumidores e melhores margens.
No Brasil, essa expansão aconteceu em uma velocidade pouco comum na indústria automotiva. A BYD iniciou oficialmente as vendas de automóveis de passeio no país no fim de 2021 e rapidamente ampliou a gama com Tan, Han, Dolphin, Dolphin Mini, Yuan Plus, Song Plus, King, Shark e outros modelos. Paralelamente, acelerou a abertura de concessionárias e aumentou sua participação em segmentos nos quais fabricantes chineses tinham presença bastante limitada poucos anos atrás.
A etapa seguinte envolveu a instalação de uma operação industrial no país. A antiga fábrica da Ford em Camaçari, na Bahia, tornou-se o principal projeto produtivo da BYD no Brasil e uma peça importante dos planos para a América Latina. A produção nacional permite reduzir gradualmente a dependência de veículos importados da China, ampliar o conteúdo local e, principalmente, desenvolver produtos mais adequados às características do mercado brasileiro.

Navio da BYD desembarca King e Song Pro em Suape
Os híbridos flex são um dos exemplos dessa estratégia. A fabricante passou a trabalhar em conjuntos que combinam eletrificação e etanol, uma solução diretamente ligada às características da matriz energética brasileira e que dificilmente teria a mesma prioridade na China. O Atto 2 DM-i Flex faz parte dessa nova fase, enquanto a empresa também prepara sua entrada em outros segmentos e amplia a gama de modelos produzidos e comercializados no país.
A instalação de uma estrutura industrial também permite à BYD olhar para o Brasil como possível base para atender outros países da América Latina. É uma estratégia utilizada há décadas por fabricantes instalados no país, especialmente dentro do Mercosul, e que pode ganhar importância conforme a operação brasileira da empresa aumentar de escala.
Isso ajuda a dimensionar os investimentos feitos pela BYD por aqui. A disputa não está limitada ao consumidor brasileiro ou à tentativa de ganhar participação de fabricantes como Volkswagen, Chevrolet, Fiat e Toyota. A empresa está construindo uma operação internacional em um momento no qual os mercados fora da China passam a responder por uma parcela cada vez maior de suas vendas e de seus resultados.
Os números do primeiro semestre mostram o tamanho dessa mudança. Se 44% das vendas da BYD já acontecem fora da China, a empresa está próxima de uma situação em que metade de seus carros terá compradores em outros mercados. O crescimento de 71% das exportações reforça a velocidade desse movimento e coloca países como o Brasil em uma posição diferente daquela ocupada poucos anos atrás, quando eram basicamente destinos para veículos produzidos na China.

Fábrica da BYD em Camaçari (BA)
Foto de: BYD
A BYD é o exemplo mais visível no Brasil, mas não está sozinha. A GWM já produz veículos no país, a Geely retornou ao mercado com uma operação ampliada, a GAC iniciou uma estrutura própria, a Leapmotor chegou apoiada pela Stellantis e Omoda & Jaecoo avançam com novos produtos e concessionárias. São estratégias diferentes, porém desenvolvidas diante de uma mesma realidade: o mercado chinês continua gigantesco, mas ficou mais disputado e difícil de crescer.
Esse movimento ajuda a explicar por que o Brasil recebeu tantas fabricantes e tantos carros chineses em um intervalo tão curto. O país tem um mercado relevante, indústria automotiva estabelecida, capacidade de produção e acesso aos demais mercados da região. Para empresas que precisam aumentar as vendas internacionais, são características difíceis de ignorar.
Os 790 mil veículos exportados pela BYD no primeiro semestre mostram que a expansão internacional já deixou de ser uma promessa distante. Quase metade das vendas da empresa acontece fora da China, e o Brasil passou a ocupar um espaço importante nesse processo. A quantidade de carros, concessionárias e investimentos chineses que apareceu por aqui nos últimos anos é uma consequência bastante visível dessa mudança.
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