Em A Sociedade do Espetáculo, Guy Debord descreve uma sociedade em que as imagens passam a mediar as relações humanas. Aplicada à disputa entre Flávio Bolsonaro e Lula, essa reflexão provoca uma pergunta!
- Estamos escolhendo um projeto de país ou consumindo personagens construídos para conquistar nossa atenção?
Quando a eleição se transforma em espetáculo, a provocação ganha mais espaço que a explicação. O ataque rende cortes, a indignação mobiliza torcidas e a proposta precisa disputar alguns segundos de atenção. Nesse ambiente, tanto Lula quanto Flávio devem ser cobrados pelo que pretendem fazer, como executarão suas promessas e de onde sairão os recursos.
Há diferenças políticas entre os dois, e examiná-las é essencial. Mas qual eleitor consegue compará-las quando toda crítica vira ofensa e toda pergunta é tratada como traição?
A democracia perde qualidade quando o cidadão entrega ao candidato, junto com o voto, sua capacidade de discordar.
O primeiro passo para sair desse roteiro está nas mãos de quem vota como comparar propostas, conferir informações e exigir respostas.
Antes de compartilhar o próximo ataque, pergunte:
- Isso ajuda a entender o Brasil ou apenas alimenta minha rejeição?
O debate da Globo desta sexta-feira (23), entre Lula e Flávio Bolsonaro, oferece uma oportunidade de romper com a lógica do espetáculo.
À luz da reflexão de Debord, a pergunta é:
- Veremos projetos de país ou uma disputa por cenas que rendam aplausos e cortes nas redes?
Cabe aos candidatos explicar suas propostas e ao eleitor avaliar a consistência das respostas.
- Quem vai pagar pelas promessas?
- Como serão executadas?
O melhor desempenho deveria ser medido pelo que esclarece, e não apenas pelo constrangimento que impõe ao adversário.
O espetáculo precisa de plateia. A democracia precisa de cidadãos e projeto de país.