A matemática da gestão pública em Paranaguá às vezes parece desafiar as leis da física. Vamos aos números.
Na gestão do ex-prefeito Marcelo Roque, a revitalização da Avenida Senador Atílio Fontana foi contratada por quase R$ 63 milhões. Detalhe curioso: na assinatura, só havia R$ 23 milhões disponíveis do empréstimo de R$ 80 milhões feito pela antiga gestão. Ou seja, contratou-se uma obra 2,7 vezes maior que o dinheiro em caixa. Resultado: notificações por atraso, nenhuma resposta da empresa e rescisão (amigável) em junho de 2024. Pavimentação em asfalto, sem ponte sobre o Rio Ribeirão, e percentual de execução baixíssimo.
Semana passada, o prefeito Adriano Ramos e o governador Ratinho Jr anunciaram a assinatura de convênio de R$ 35 milhões, para fazer a mesma avenida em concreto – para aguentar o tráfego pesado de caminhões – e com a ponte sobre o Ribeirão. Cinco quilômetros completos, com drenagem, terraplenagem e sinalização.
Então, vamos recapitular o sarcasmo inevitável: antes, R$ 63 milhões para asfalto sem ponte e sem entrega. Agora, R$ 35 milhões para concreto com ponte e projeto completo. Quase metade do preço pelo dobro da qualidade. Será que o asfalto anterior vinha com pó de ouro?
E o padrão se repete. A revitalização da Praça de Eventos, cerca de R$ 8 milhões, é sempre comparada pela população com a Ponte da Ilha dos Valadares – obra complexa, sobre o nosso Itiberê, com fundação subaquática. Custo final oficial da ponte: R$ 13,4 milhões. Uma praça custar mais da metade de uma ponte que atende 40 mil pessoas? Conta curiosa.
Difícil não lembrar do escândalo da AGP Saúde, que ainda assombra a cidade. Não estamos dizendo que é igual, mas o filme parece repetido: valores superestimados, obras que não andam e dinheiro público que some no ralo. Quando a conta não fecha, a população tem todo o direito de desconfiar.
A nova Atílio Fontana em concreto por R$ 35 milhões expõe, por contraste, o tamanho do desperdício anterior.