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O Leprosário

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Caros leitores, convido-os a uma viagem no tempo, aos idos de 1870.

No século XIX, os leprosários eram espaços de isolamento e tratamento para pessoas com lepra (hanseníase). Localizados em áreas afastadas, visavam conter a doença, cercada de temor e preconceito. Há relatos sobre um leprosário entre Morretes e Antonina, criado para afastar os enfermos da região portuária de Paranaguá. Como os portos eram centros comerciais, temia-se que a presença dos doentes prejudicasse a circulação de mercadorias e passageiros. Assim, essas colônias tornavam-se comunidades isoladas, marcadas pelo sofrimento e pela exclusão.

Antes do amanhecer, o médico Dr. Leocádio percorria as estradas em sua carruagem carregada de mantimentos e remédios. Embora pudesse seguir pelo mar, preferia enfrentar lamaçais e pontes instáveis. Ao meio-dia, chegava às margens do rio Nhundiaquara, em Morretes. No caminho para Antonina, desviava-se até uma vila miserável, de casebres de madeira e chão de terra batida.

— Lá vem ele! Nosso anjo! — exclamou um homem abatido ao avistá-lo.

Leocádio parou e logo foi cercado pelos moradores, vestidos com trapos.

— Aqui estão os remédios e mantimentos. Ajudem-me a descarregá-los — disse o médico, disfarçando a emoção.

O cenário era desolador. Alguns estavam acamados; outros tentavam preservar a dignidade. Para muitos, sua visita era a única esperança. Diante de um monte de cinzas, entendeu: sempre que um doente morria, sua casa era incendiada.

— Pobre Antoninho… Morreu há seis dias. Enterramo-lo no capão do bugre — contou um dos moradores.

O médico ficou em silêncio. O homem prosseguiu:

— O senhor é o único que nos visita. Todos têm medo da lepra. Apenas deixam mantimentos à distância. Só a morte nos visita… E o senhor.

Leocádio sentiu um aperto no peito.

— Deus é a melhor companhia. Ele está com vocês — afirmou, antes de voltar à carruagem.

A cada quinze dias, repetia essa jornada.

Ao entardecer, seguia para Antonina. O aroma da mata e o som das águas renovavam suas forças.

— Viajar assim faz bem à alma — costumava responder quando perguntavam por que evitava o trajeto marítimo.

Aceitara o cargo de inspetor sanitário dos portos de Paranaguá e Antonina, em grande parte, por conta dessas viagens. Dessa forma, prestava auxílio aos doentes esquecidos.

“Por que o homem sofre?”, perguntava-se. Alguns diziam ser consequência da imperfeição humana, mas essa explicação parece simplista.

Talvez cada pessoa tivesse uma missão. Algumas seguiam pelo bem; outras, pelo mal. No entanto, era o próprio homem quem teceu a rede na qual acabava aprisionado. Pensava que, se cada um fizesse sua parte, a dor no mundo poderia ser menor.

Após três dias de viagem, ao retornar a Paranaguá, Leocádio sentia-se renovado. Até sua esposa, Carmela, percebia a mudança.

— Gostaria de saber como volta tão bem dessas viagens — dizia ela.

Leocádio apenas sorria. Seu coração estava em paz.

CORREIA, Rubens. Brumas do Passado. 1. ed. Pguá: [s. n.], 1988.

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