Search
Close this search box.
Search
Close this search box.

Por Que os Pais da Gen Alpha Estão Trocando Smartphones por Telefones Fixos Infantis

Uma amiga de Reagan Maher lhe apresentou Tin Can, um telefone com conexão Wi-Fi voltado para crianças. Conectado na tomada da parede, ele lembra bastante aqueles aparelhos antigos que eram presença certeira na cozinha de qualquer casa nos anos 1990. Intrigada, Maher comprou um no final do ano passado como presente de Natal para seus três filhos, de 6, 8 e 10 anos.

Vários outros amigos no abastado subúrbio de Livermore, na região da Baía de São Francisco (Califórnia), também compraram o aparelho para as suas crianças. Em seguida, Maher mandou o link no grupo das mães – e, num piscar de olhos, os filhos dela ganharam uma rede social improvisada e 100% livre de telas.

Maher, que trabalha no setor de tecnologia, conta que ela e os vizinhos se sentiram motivados a comprar o Tin Can por estarem “cansados de ficar combinando encontros para brincar e gerenciar a vida social dos filhos”. Quem tem criança em casa sabe como é exaustivo acompanhar uma infinidade de mensagens nos grupos de pais, além da logística complexa – que vai desde esquemas de carona até restrições alimentares – para cada filho, várias vezes ao dia. Em resumo: dá um trabalho enorme conseguir juntar as crianças.

Tin CanTin Can é a nova tendência entre crianças americanas

Maher também está disposta a manter os filhos longe dos smartphones pelo maior tempo que conseguir e afirma que os vizinhos pensam da mesma forma. “Queremos que eles consigam se comunicar”, diz ela. “Mas nenhum de nós quer dar celular para as crianças tão cedo. A maioria quer tentar segurar essa barra até o ensino médio.”

Ela, que também tem experiência na área de segurança nacional e é casada com um agente da lei, carrega outro receio ao entregar qualquer dispositivo conectado à internet para as crianças: a segurança. Ela conta que ambos acompanham “de perto como pessoas mal-intencionadas conseguem explorar crianças no ambiente online”.

Buscando Conexão (Sem as Telas)

O Tin Can não tem tela, filtros chamativos, apps nem opção de tirar selfie. Não existe rolagem de feed, rede social, navegação na internet ou troca de mensagens de texto. Há botões de verdade para apertar e um fio para enrolar nos dedos enquanto conversa.

As crianças podem discar para a emergência se os pais ativarem essa função. Os criadores do aparelho também adicionaram recursos focados na tranquilidade dos adultos, parecidos com os de relógios inteligentes infantis e softwares de controle parental. O sistema permite programar horários de pausa em que o aparelho fica inativo e bloqueia chamadas de spam, autorizando apenas chamadas de números previamente aprovados pelos pais.

DivulgaçãoSomente contatos autorizados podem fazer chamadas para o Tin Can

O aparelho, ainda não está disponível no Brasil, custa US$ 100, além de uma mensalidade de US$ 10 para liberar ligações para telefones comuns – a comunicação entre aparelhos Tin Can é gratuita. Maher e os outros pais com quem conversei consideram o valor uma pechincha e uma dor de cabeça muito menor do que mandar instalar uma linha fixa tradicional – algo que vem sumindo dos lares há mais de duas décadas. Mais de 90% dos adultos nos EUA tinham telefone fixo em casa em 2004. Em 2024, esse número despencou para cerca de 20%, segundo o Centro Nacional de Estatísticas de Saúde.

Por outro lado, os telefones fixos feitos para crianças parecem estar ganhando força entre pais de saco cheio de controlar tempo de tela e preocupados com as ciladas dos smartphones ou o vício digital que vem a reboque. O Tin Can vive esgotado e é lançado em lotes vendidos em questão de minutos.

Quando conversei no início de junho com Dessa Brennan, mãe residente em Colorado, ela estava na fila de espera para o “lote 7”, liberado em julho. Ela faz tanta questão de manter o filho de 8 anos longe das telas que nem se importou com a demora. Brennan diz que pode até ser um pouco “desconectada” ou avessa à tecnologia, mas não quer dar ao filho “acesso prematuro a uma tela”. Ela faz questão, no entanto, de manter contato com ele quando o menino está na casa do pai, seu ex-marido. Ela encomendou dois aparelhos, um para cada residência, para conseguir ligar direto para o filho – e, de quebra, evitar as distrações do próprio celular durante a ligação.

DivulgaçãoModelos do Tin Can

Chet Kittleson, cofundador e CEO do Tin Can, conta que “o telefone fixo foi uma verdadeira tábua de salvação na infância”, por ter crescido em meio a um ambiente familiar turbulento e simplesmente por ser muito comunicativo e extrovertido.

Desde o lançamento oficial do Tin Can em abril de 2025, eles já venderam centenas de milhares de unidades nos EUA e no Canadá. As pré-vendas acabam de estrear em seus primeiros mercados internacionais: Austrália, Nova Zelândia e Reino Unido. Kittleson garante que o produto viralizou desde o primeiro dia e que o único entrave para a expansão é a capacidade operacional da equipe frente a tantos pedidos: “O maior obstáculo ao nosso crescimento tem sido nossa incapacidade de acompanhar a demanda.”

E o Tin Can já não está sozinho nesse mercado. Diversos aparelhos em estilo fixo com Wi-Fi voltados para o público infantil estrearam este ano. O Ooma MyPhone, vendido nos EUA em redes como Walmart, Costco e Amazon, foi lançado em maio. A Pinwheel, que já fabrica smartwatches e celulares para crianças e adolescentes, começou a entregar dois modelos de seu telefone residencial Pinwheel Home. No Brasil, apesar de a tendência estar chamando atenção dos consumidores, ainda não existem marcas de telefones voltados especificamente para crianças.

Por que os telefones fixos infantis estão tão em alta?

Cada um desses aparelhos desperta uma baita onda de nostalgia nos pais que sonham com o retorno a uma infância mais calma e focada no mundo real. As crianças não conseguem mandar mensagens ou jogar neles, tampouco levá-los no bolso. Em vez disso, encontram a boa e velha comunicação humana esperando no gancho. É tirar do suporte, discar o número e começar a bater papo – e talvez criar laços de verdade.

Rose Gordon, para a ForbesO modelo não tem telas, e sim botões como um telefone comum

O Tin Can chegou ao mercado em um momento cultural muito específico – “momento de acerto de contas” talvez seja a definição mais precisa. O dispositivo viralizou cerca de um ano após o lançamento do livro A Geração Ansiosa, de Jonathan Haidt, que virou leitura obrigatória entre mães e pais. A obra faz um alerta sobre os impactos negativos das redes sociais e do acesso precoce a smartphones, ao mesmo tempo em que incentiva os pais a trocarem a infância baseada em telas por autonomia real e oportunidades de amadurecimento, como deixar a criança ir sozinha à padaria comprar um lanche.

O livro passou 100 semanas na lista de bestsellers do New York Times e motivou a criação de clubes de leitura em associações de pais de todo o país. Grupos de pais começaram a assinar o compromisso Wait Until 8th (Espere Até o 8º Ano), prometendo não dar smartphones aos filhos até o final do ensino fundamental II ou início do ensino médio.

No último ano letivo, os maiores distritos escolares dos EUA, incluindo Nova York, aprovaram pela primeira vez o banimento de celulares nas salas de aula para o ano letivo de 2025-2026, medida acompanhada por várias cidades menores. A Diretoria-Geral de Saúde dos EUA (Surgeon General) acaba de emitir um novo alerta sobre os danos do tempo de tela para crianças – o segundo em dois anos, vindos de governos com visões políticas opostas. Tudo isso somado a uma crise contínua de saúde mental entre adolescentes.

O Tin Can chegou às prateleiras cerca de cinco anos após a pandemia ter fechado escolas e escritórios, empurrando as crianças para um ano inteiro de aulas e amizades mediadas exclusivamente por monitores. Soma-se a proibição dos celulares nas escolas e a ansiedade geral com a tecnologia ao topo da febre retrô dos anos 90 – que se reflete não só na moda, mas no estilo de criação dos filhos, com brincadeiras no estilo “férias à moda antiga” em alta – e, de repente, ter um telefone fixo para as crianças faz todo o sentido do mundo.

‘O Tin Can permite que crianças sejam crianças’

Não chega a surpreender que Catherine Price tenha comprado um Tin Can para a filha de 11 anos. Ela escreveu How To Break Up With Your Phone em 2018 e é coautora de The Amazing Generation, quadrinho baseado na obra de Jonathan Haidt focado em incentivar os próprios jovens a abandonarem o celular e o vício digital.

“Sou fã de carteirinha. Acho fundamental ensinar as crianças desde pequenas a conversar de verdade, e adoro saber que posso dar muito mais liberdade para minha filha com um telefone fixo do que daria com um smartphone. Afinal, nada de mal vai acontecer naquela ligação. Os perigos de verdade estão no Snapchat e no Instagram”, afirma.

Ela também reforça que conversar com os amigos é uma etapa natural e saudável do desenvolvimento, sobretudo na pré-adolescência: “Isso supre uma necessidade genuína deles… de ter mais independência dos pais e criar laços com os amigos.”

Rose Gordon, para a ForbesO Tin Can é inspirado no design retrô dos anos 90

A meia dúzia de pais com quem conversei para esta matéria relatou experiências parecidas. Embora a motivação inicial tenha sido evitar as complicações de dar um iPhone cedo demais, o que mais os encantou no Tin Can foi poder testemunhar as conversas das crianças com os amigos e acompanhar o desabrochar da autonomia delas ao escolherem para quem ligar, o que falar e se queriam ou não combinar de se encontrar.

Hanith Danino, assistente social clínica que atende crianças e jovens e é mãe de duas meninas em Nova Jersey, comprou o aparelho focado na filha de 8 anos como presente de Hanukkah. Durante o último inverno, marcado por tempestades de neve intensas, a menina ligava para as amigas para saber se queriam brincar em vez de encarar o frio batendo de porta em porta na rua. Quando faltou à aula por conta de um resfriado, “a amiga ligou só para contar o que tinha acontecido na escola e saber como ela estava”, conta Danino. A filha mais velha, de 11 anos, tem um Apple Watch e usa o telefone fixo com menos frequência, mas as duas saem correndo em disparada para atender assim que o aparelho toca. Ele não tem identificador de chamadas.

Danino também é uma das organizadoras da campanha Wait Until 8th na escola local e evita ao máximo dar acesso a smartphones para as filhas. “Talvez ganhem um celular no ensino médio, mas ainda com bastante controle meu, e rede social só a partir dos 16 anos”, pontua. “É algo viciante demais. Se nós, adultos, mal conseguimos conter nossos impulsos, imagina crianças que ainda estão em fase de desenvolvimento e não têm esse autocontrole.

Maher conta que os dois filhos mais velhos são os que mais usam o aparelho, sobretudo para jogar conversa fora: “Isso fortalece muito os laços de amizade.” Eles registraram 102 ligações apenas em maio, segundo os dados do aplicativo do Tin Can no celular dela. O filho de 10 anos é super comunicativo e liga direto para os colegas do bairro perguntando se querem “ir ao parque, andar de bicicleta ou jogar Fortnite”, conta a mãe.

Numa era em que parte da garotada recorre a robôs de inteligência artificial em busca de amizade e até para simular namoros, não é de espantar que os pais estejam desesperados para incentivar conexões no mundo real a qualquer custo.

Um estudo recente da organização Girl Scouts revelou que 65% das meninas de 5 a 13 anos que usam assistentes de voz com IA consideram a tecnologia uma amiga. Já uma pesquisa de 2025 do Pew Research Center mostrou um dado preocupante: 16% dos adolescentes disseram usar robôs de conversa para bater papo informal, enquanto 12% recorreram à IA em busca de conselhos e apoio emocional.

“O Tin Can permite que crianças sejam crianças”, resume Maher. “Eles não se veem. Não tem chamada de vídeo. Não dá para mandar foto. É só conversa. É um resgate dos anos 90, quando a casa tinha um único telefone e ele ficava na sala. Dá a eles a liberdade de bater papo quando quiserem, mas de um jeito protegido e controlado.”

Os pais da Geração Alpha podem finalmente dizer ‘não’ aos smartphones

O Tin Can vem sendo vendido justamente como uma resposta aos receios crescentes sobre os impactos da superexposição às telas – sobretudo o uso viciante de smartphones e redes sociais, onde vídeos curtos em loop e notificações incessantes dos grupos de mensagens chamam a atenção dos jovens o tempo todo.

Um relatório apontou que metade dos adolescentes americanos passa quatro horas ou mais por dia em frente às telas, enquanto a edição de 2021 do estudo Common Sense Census revelou que pré-adolescentes de 8 a 12 anos passam, em média, 5,5 horas diárias consumindo mídias em telas, número que sobe para 8,5 horas entre jovens de 13 a 18 anos. O levantamento mostrou ainda que esse tempo é gasto majoritariamente em jogos e redes como o Snapchat, com preferência por vídeos curtos do TikTok e YouTube Shorts em relação à TV tradicional.

Tin Can

E as crianças menores não estão livres disso. O Common Sense Census de 2025 revelou que bebês de até 2 anos passam cerca de uma hora por dia diante de telas; crianças de 2 a 4 anos somam duas horas diárias, e as de 5 a 8 anos acumulam 3,5 horas por dia. Embora a maioria dos adolescentes já tenha celular – a pesquisa de 2024 do Pew Research Center indicou que 95% dos jovens americanos têm acesso a um smartphone -, percebe-se que os pais de crianças com menos de 13 anos (a chamada Geração Alpha) estão buscando formas concretas de mudar esse cenário. Resgatar o telefone fixo é parte desse movimento, e são esses os pais que estão esgotando os estoques do Tin Can.

Para essa geração que vem logo após a Z, talvez ainda drible o problema do vício digital a tempo. Price acredita que as crianças de hoje, muitas das quais ela conheceu em eventos do seu livro The Amazing Generation, “estão muito mais abertas a essa mudança do que os pais imaginam”.

Embora o estudo mais recente do Pew Research mostre que 1 em cada 4 crianças de até 12 anos já tem um smartphone, quase metade dos pais reconhece que o aparelho traz mais prejuízos do que benefícios. Uma parcela ainda maior – 8 em cada 10 pais – afirma que os males das redes sociais superam qualquer ponto positivo. A grande maioria (86%) respondeu ao Pew que controlar o tempo de tela é uma prioridade em casa, ainda que fique atrás de ensinar bons modos, garantir boas noites de sono e a prática de exercícios físicos.

Price acredita que os pais da Geração Alpha têm uma oportunidade de ouro em mãos no momento — e que não pode ser jogada fora. “Existe um movimento muito forte acontecendo agora e estamos diante de uma virada de chave, mas isso não vai acontecer sozinho”, alerta. “Não vai funcionar se os pais não se unirem na prática para comprar telefones fixos para os filhos e oferecer alternativas reais em vez de entregar um smartphone completo.”

*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia

VEJA MAIS

Polo Catavento Olímpia é dica de passeio para estudantes em época de vestibulares

Espaço reúne experiências interativas ligadas às ciências da natureza, que podem ajudar estudantes na preparação…

Por Que os Pais da Gen Alpha Estão Trocando Smartphones por Telefones Fixos Infantis

Uma amiga de Reagan Maher lhe apresentou Tin Can, um telefone com conexão Wi-Fi voltado…

Como criar filhos para seguir Jesus? Josué e Douglas Gonçalves dão conselhos aos pais

Criar filhos vai muito além de ensinar o que é certo e errado. Para os…