Há relações que podem até encontrar explicações jurídicas, mas que, diante de determinados fatos, tornam-se eticamente insustentáveis. As informações divulgadas sobre a relação entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro colocam o Brasil diante de uma pergunta que não pode ser abafada pelo silêncio institucional, pois onde termina a relação pessoal e começa o dever de imparcialidade de uma autoridade pública?
Não se trata de condenar ninguém antecipadamente. Trata-se de algo muito mais básico como ética, transparência e respeito aos princípios republicanos. Um ministro do Supremo Tribunal Federal não precisa apenas estar juridicamente correto. Precisa também preservar a confiança de que suas decisões não sofrem influência de relações privadas, interesses econômicos ou proximidades pessoais.
A toga exige distância. Exige prudência. Exige independência. E exige, sobretudo, que não exista uma sombra capaz de colocar em dúvida a imparcialidade de quem exerce tamanho poder sobre a vida dos brasileiros.
Se as mensagens, contatos e relações revelados forem legítimos e tiverem explicações plausíveis, que sejam apresentadas. Se não houver qualquer irregularidade, que as instituições demonstrem isso com transparência. Mas se houver conflito de interesses, favorecimento ou qualquer conduta incompatível com o cargo, os mecanismos constitucionais precisam funcionar.
O Senado Federal não pode permanecer esmorecido diante de fatos que atingem diretamente a credibilidade do Poder Judiciário.
A Câmara dos Deputados também não pode transformar sua prerrogativa de fiscalização em silêncio conveniente.
E o próprio Supremo precisa compreender que nenhuma instituição democrática perde autoridade por ser questionada; perde autoridade quando se recusa a responder.
O Brasil não precisa de instituições acima de qualquer suspeita. Precisa de instituições acima de qualquer privilégio.
Não se trata de escolher lado. Não é uma disputa entre direita e esquerda, entre bolsonaristas e lulistas, entre defensores ou críticos do Supremo. É uma questão anterior a tudo isso, é uma pergunta se torna pétrea nesse momento, qual é o limite ético para quem exerce o poder em nome da República?
O cidadão brasileiro tem o direito de perguntar.
A imprensa tem o dever de investigar.
O Parlamento tem a obrigação de fiscalizar.
E o Judiciário tem o dever de prestar contas quando fatos concretos colocam sua credibilidade e reputação em discussão.
Se tudo é regular, que se esclareça. Se há dúvidas, que se investigue. Se há irregularidades, que se responsabilize.
Porque o que está em jogo não é Alexandre de Moraes. Não é Daniel Vorcaro. Não é o STF. Não é o Senado. É a confiança do brasileiro na República.
E quando essa confiança começa a ruir, o silêncio das instituições deixa de parecer prudência e começa a parecer omissão.
O povo brasileiro não está pedindo espetáculo.
Está pedindo respostas.