A Renault Oroch está perto de encerrar uma carreira de mais de uma década no Brasil. Lançada em 2015, a picape abriu espaço para um segmento até então praticamente inexistente no mercado nacional, situado entre modelos compactos como Fiat Strada e Volkswagen Saveiro e as tradicionais picapes médias.
A ideia mostrou que havia demanda, mas foi a Fiat Toro, lançada no ano seguinte, que transformou a categoria em um negócio de grande volume. A Oroch nunca conseguiu ameaçar a rival e, com o passar dos anos, também ficou distante tecnologicamente dos modelos mais recentes.
A sucessora deixa isso bastante evidente. Apresentada dias atrás, a Renault Niagara chegará ao mercado brasileiro em novembro com dimensões maiores, motor turbo, câmbio automático de dupla embreagem, opção de tração integral e uma cabine muito mais sofisticada.
Mas nem todos os números favorecem a novidade. Em capacidade de carga, por exemplo, a veterana ainda consegue superar a substituta. Veja dez diferenças importantes entre as duas picapes.
1. Motor: 112 cv contra 158 cv
A diferença começa sob o capô. A Oroch atualmente é oferecida com o conhecido motor 1.6 SCe flex aspirado, que entrega até 112 cv e 15,8 kgfm de torque.
A Niagara estreia com o motor 1.3 turbo flex, com 158 cv. Além da diferença de 46 cv, o propulsor sobrealimentado entrega consideravelmente mais torque, algo particularmente importante em uma picape utilizada carregada ou em retomadas.
A Oroch já contou com esse motor turbo em versões mais caras, mas a configuração deixou a linha regular e hoje aparece apenas em unidades remanescentes.

2. Câmbio automático
A Oroch 1.6 atualmente disponível utiliza câmbio manual de seis marchas. Na Niagara, a Renault adotou uma transmissão automática de dupla embreagem.
A diferença vai além da comodidade no trânsito. A combinação do motor turbo com a transmissão DCT coloca a nova picape em uma posição mais próxima de rivais como Fiat Toro e Ram Rampage, que concentram suas vendas em configurações automáticas.

3. Tração 4×4
Outra limitação da Oroch é a ausência de tração integral. Mesmo nas versões mais potentes que já foram comercializadas, a picape sempre enviou a força apenas às rodas dianteiras.
A Niagara terá versões 4×2 e 4×4. Na configuração integral, o sistema distribui automaticamente o torque entre os eixos conforme as condições de aderência.
É uma diferença importante para uma picape que pretende ampliar seu uso fora do asfalto e disputar clientes que até então dificilmente considerariam a Oroch.

4. Quase 5 metros de comprimento
A mudança de categoria também aparece nas dimensões. A Oroch mede 4,72 metros de comprimento, enquanto a Niagara terá 4,91 metros na versão 4×2 e 4,94 metros na 4×4.
São até 22 centímetros adicionais. A nova Renault, portanto, abandona parte do caráter compacto que distinguia a Oroch e se aproxima fisicamente das picapes intermediárias mais recentes.

5. Caçamba cresce 37%
Talvez a diferença prática mais expressiva esteja atrás da cabine. A Oroch oferece 683 litros de volume na caçamba. Na Niagara são 938 litros.
O ganho é de 255 litros, ou aproximadamente 37%. O aumento permite acomodar objetos maiores sem que a Renault tenha precisado transformar a Niagara em uma picape média tradicional.

6. Oroch ainda carrega mais peso
É justamente aqui que a comparação produz uma surpresa. Apesar da caçamba muito maior, a Niagara suporta até 654 kg de carga.
Dependendo da configuração, a Oroch chega a 678 kg. Portanto, são 24 kg a mais para a veterana.
Isso mostra que tamanho de caçamba e capacidade de carga são características diferentes. A Niagara ganha bastante espaço para acomodar volumes, mas não necessariamente pode transportar mais peso.

7. Cabine salta uma geração
Mesmo após as atualizações realizadas pela Renault, a Oroch conserva boa parte da arquitetura interna derivada do antigo Duster. O painel de instrumentos é convencional e a central multimídia tem tela de 8 polegadas.
A Niagara utiliza uma configuração com duas telas de aproximadamente 10 polegadas, uma para o quadro de instrumentos digital e outra para a central multimídia. O sistema OpenR Link também oferece serviços do Google integrados.
É provavelmente a mudança que ficará mais evidente para quem sair diretamente de uma Oroch e entrar na nova picape.
8. ADAS muda o nível de segurança ativa
A diferença eletrônica é ainda maior nos sistemas de assistência ao motorista. A Oroch possui equipamentos como controles de estabilidade e tração e assistente de partida em rampas, mas nasceu antes da disseminação dos sistemas avançados de assistência nos carros dessa faixa de preço.
A Niagara poderá reunir 26 recursos de assistência e segurança. Entre eles estão controle de cruzeiro adaptativo com Stop&Go, frenagem autônoma de emergência, assistente de permanência em faixa, alerta de tráfego cruzado e câmera com visão de 360 graus.

9. Capacidade de reboque vira argumento
A Renault também passou a tratar capacidade de reboque como uma característica importante da nova picape. A Niagara pode rebocar até 710 kg, número que a fabricante apresenta como referência entre suas concorrentes diretas.
É uma capacidade especialmente útil para pequenos trailers, carretinhas e equipamentos recreativos, um tipo de utilização pouco explorado comercialmente durante a trajetória da Oroch.
10. Niagara já nasce pensando na eletrificação
Talvez a maior diferença entre as duas esteja no que ainda não chegou às lojas. A Oroch nasceu sobre a arquitetura da primeira geração do Duster e alcançou o fim de sua evolução sem qualquer versão eletrificada.
A Niagara utiliza a plataforma modular RGMP, desenvolvida para os novos produtos internacionais da Renault. A fabricante já confirmou que a picape receberá uma configuração eletrificada posteriormente, prevista para 2027.
Pioneira que nunca alcançou a Toro
Quando apareceu em 2015 ainda como Duster Oroch, a Renault criou uma alternativa inédita no Brasil. A picape tinha cabine dupla, quatro portas, cinco lugares e dimensões maiores que Strada e Saveiro, sem chegar ao tamanho e ao custo de uma média como Toyota Hilux ou Chevrolet S10.
A Fiat percebeu praticamente a mesma oportunidade, mas atacou o mercado de outra forma. Lançada em 2016, a Toro nasceu maior, mais sofisticada e com opções de motor diesel, câmbio automático e tração 4×4.
A diferença apareceu rapidamente nos emplacamentos. Já no primeiro ano completo de convivência, a Toro vendeu quase três vezes mais que a Oroch. A Renault atualizou sua picape ao longo da carreira e chegou a oferecer o motor 1.3 turbo, mas nunca conseguiu inverter essa relação.
A Niagara parte justamente de uma proposta mais próxima daquela que tornou a Toro dominante. Cresceu, ganhou equipamentos normalmente encontrados em SUVs, adotou tração integral e passa a disputar uma faixa superior do mercado.

Oroch pode ficar mais interessante para alguns donos
A superioridade tecnológica da Niagara não significa que todo proprietário de Oroch tenha razão para trocar imediatamente de carro. Há características da antiga Renault que podem ser vantajosas dependendo do uso.
O motor 1.6 aspirado, o câmbio manual e a ausência de sistemas eletrônicos sofisticados formam um conjunto mecânico mais simples. Para quem utiliza a picape como ferramenta de trabalho, custo de manutenção e facilidade de reparo podem pesar mais que desempenho, telas ou sistemas ADAS.
Há também a própria capacidade de carga. Os até 678 kg da Oroch mostram que a picape antiga continua competitiva em uma característica diretamente relacionada ao trabalho, apesar dos 938 litros oferecidos pela caçamba da Niagara.
A decisão sobre vender antes da chegada da sucessora envolve outra variável: depreciação. A Niagara deve tornar a diferença de idade entre os projetos muito mais perceptível, principalmente para exemplares recentes da Oroch. Mas o efeito sobre os preços dos usados só poderá ser medido depois que os valores e as versões da nova picape forem conhecidos.