Um “troféu” que nenhum lugar gostaria de ter. É o que mostra um estudo realizado pelo Tribunal de Contas do Paraná (TCE-PR), que apontou cerca de 688 mil ocorrências de violência contra a mulher no Estado entre 2019 e 2025. As regiões com maior concentração são o Litoral e o Centro-Sul.
Paranaguá é o único município que aparece simultaneamente nas concentrações territoriais de violência doméstica, estupro e homicídio. Para chegar aos índices, o TCE utilizou dados de sua própria Coordenadoria de Auditorias (CAUD), a partir de informações da Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp-PR) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O Tribunal criou um índice de 0 a 100 que reúne sete tipos de violência, considerando taxas por 100 mil habitantes e dando maior peso aos crimes letais. No ranking geral, Matinhos lidera (100,0), seguido por Pontal do Paraná (96,3). Entre os municípios com mais de 30 mil habitantes, Paranaguá aparece em 8º lugar (75,1). Já entre as 24 cidades com mais de 100 mil habitantes, Paranaguá ocupa a 2ª posição, atrás apenas de Foz do Iguaçu.
O TCE-PR ressalta que os dados devem ser interpretados com cautela, pois o levantamento considera apenas casos registrados oficialmente. Segundo o órgão, índices elevados podem indicar maior ocorrência, mas também uma maior capacidade de atendimento e registro. Da mesma forma, taxas baixas podem estar relacionadas à subnotificação.
Para o Tribunal, a análise serve como um indicativo de áreas que merecem atenção, e não como um retrato definitivo dos casos ou da qualidade da gestão municipal.
“O objetivo do estudo foi subsidiar a seleção de municípios por parte da Corte para a realização de auditorias operacionais a respeito das políticas públicas locais de enfrentamento à violência contra a mulher. Essas fiscalizações estão sendo realizadas desde o ano passado”, divulgou o TCE.
Delegada aponta aumento das denúncias e reforça atuação integrada
O JB Litoral conversou com a delegada da Polícia Civil responsável pelos casos em Paranaguá, Kemelly Maria da Silva Lugli. Segundo ela, os dados não devem ser analisados isoladamente.
“O levantamento demonstra que a violência doméstica ainda é uma realidade que precisa ser enfrentada em Paranaguá. Contudo, o aumento dos números reflete também a maior confiança da população em denunciar e a ampliação da capacidade de registro e acolhimento das forças de segurança”, afirmou.
Sobre o perfil das ocorrências, Kemelly afirma que o problema atinge diferentes grupos, mas aponta uma predominância. “Identificamos uma prevalência de jovens vitimadas por ex-companheiros, com as agressões ocorrendo principalmente no ambiente residencial.”
Para a delegada, o trabalho policial é essencial, mas precisa estar associado a outras áreas para produzir mudanças culturais duradouras. “A superação desse cenário exige uma mudança estrutural a longo prazo no modo como são vistas e respeitadas na sociedade, o que depende do fortalecimento de ações entre as áreas de saúde, educação e assistência social dos governos municipal e estadual”, concluiu.
Prevenção e atendimento precisam considerar a dinâmica da temporada
A vice-prefeita de Pontal do Paraná e coordenadora de Políticas Públicas para Mulheres, Patrícia Millo Marcomini (PSD), afirmou ao JB que os registros de violência doméstica durante a temporada também incluem turistas, o que dificulta o acompanhamento dos casos. Segundo ela, muitas realizam o boletim de ocorrência em Pontal do Paraná, mas deixam a cidade logo depois.
Por isso, a Prefeitura busca identificar, junto à polícia, quantas delas são moradoras e quais estão no município apenas durante o verão. “A gente tem só a quantificação das vítimas, mas precisa qualificar: quem são e onde estão”, observou.

A secretária da Família e Desenvolvimento Social de Pontal do Paraná, Kathia Salomão de Souza, destacou as ações voltadas à prevenção e ao fortalecimento da autonomia feminina. Entre elas estão cursos de qualificação profissional, palestras em escolas e atividades da Patrulha Maria da Penha.
No último dia 26, foi feito o lançamento do Programa de Capacitação Intersetorial Rede Preparada Mulher Segura, iniciativa do Consórcio Metropolitano de Serviços do Paraná (COMESP), em parceria com a Prefeitura de Pontal do Paraná e a Lab Social.
“Uma das coisas é capacitar e trazer a formação para a rede de atendimento. Essa formação vai englobar também questões de prevenção, não só após a situação de violência”, destacou.
Ações de prevenção e atendimento
Paranaguá mantém ações de prevenção e enfrentamento à violência contra a mulher, como a Patrulha Maria da Penha, atividades educativas em escolas e comunidades e iniciativas de orientação sobre direitos e canais de denúncia. Em março, uma ação nas comunidades marítimas levou informações sobre o tema e atendimento de saúde.
Em julho, foi inaugurado o Centro Integrado de Atendimento e Valorização da Mulher, na Rua Júlia da Costa.
“Aqui elas encontrarão acolhimento, orientação, atendimento especializado e oportunidades para fortalecer sua autonomia pessoal, profissional e financeira. O Centro nasce para ser uma referência de proteção, valorização e respeito às mulheres de Paranaguá”, explicou a secretária municipal da Mulher, Desenvolvimento Social e Igualdade Racial, Carolina Lourenço, no dia da entrega.
Paranaguá é o único município do Litoral que possui uma casa para acolher mulheres em risco: a Casa da Mulher Parnanguara. A unidade oferece proteção temporária, enquanto são organizados os encaminhamentos e as medidas de proteção.
*A Prefeitura de Matinhos também foi contatada pelo JB Litoral, mas não retornou até o fechamento da reportagem.