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a Corrida Que Ninguém Sabe Quem Vai Vencer nem Como Vai Terminar

No dia 12 de setembro, Dario Amodei fez algo que nenhum CEO de tecnologia costuma fazer: pediu para desacelerar o próprio produto. Em um ensaio chamado “We Must Pace the Frontier”, o fundador da Anthropic escreveu que é preciso “desacelerar o ritmo em que melhoramos as capacidades dos modelos de IA“. Em poucas horas, Sam Altman, da OpenAI, concordou publicamente. Elon Musk resumiu em três palavras: “Dario está certo”. Satya Nadella, da Microsoft, endossou a pausa deliberada e prometeu um código de conduta. Demis Hassabis, que comanda a ciência de IA na Google, chamou o caminho de Amodei de “a direção correta”. A OpenAI foi além: adiou o IPO, citando pesquisa insuficiente sobre alinhamento e monitorabilidade dos próprios modelos.

Foi, para os padrões do setor, um raro momento de unanimidade entre rivais que normalmente nem trocam elogios. Durou pouco. No dia seguinte, o presidente Trump respondeu sem meias palavras: “Estamos liderando a China em IA, somos o país mais sofisticado do mundo e, francamente, quero manter assim — porque quem vencer a IA, vence.” Na rede Truth Social, ele foi mais longe com a afirmação de que o único controle que a IA precisa é “um presidente forte e inteligente”. O líder da Câmara, Mike Johnson, completou a lógica, afirmando que regular agora “faz a gente perder a corrida para a China”.

De um lado, quem constrói a tecnologia pedindo cautela. Do outro, o poder político dizendo que cautela é um luxo que a geopolítica não permite. E há uma terceira voz, mais incômoda que as outras duas: a de quem saiu de dentro das empresas. Jacob Coxon, pesquisador que deixou a Anthropic abrindo mão do próprio patrimônio em ações antes de vestirem, disse o que nenhum executivo diria em entrevista coletiva: “As pessoas que constroem IA acreditam genuinamente que ela pode matar todos nós até o fim da década.” E, sobre a pressão comercial: “se você está sob pressão para correr, você corta caminhos.”

Os riscos que Amodei lista não são retórica de efeito, pelo contrário, citam possível perda de controle sobre sistemas que já demonstram autoaperfeiçoamento recursivo, ciberataques coordenados por agentes que agem como “um coletivo fanaticamente devotado”, uso indevido para armas biológicas e disrupção econômica em escala para a qual nenhuma regulação vigente está pronta. Do outro lado, as oportunidades também são concretas, entre elas, a cura de doenças graves como câncer, ganhos reais de produtividade e, se os benefícios forem distribuídos como defende Satya Nadella, em vez de concentrados “nas mãos de um punhado de empresas”, uma reorganização genuinamente positiva de como o mundo trabalha.

Portanto, o impasse é estrutural, não moral. É um dilema de segurança clássico: se os Estados Unidos desaceleram e a China não, a distância pode se tornar irreversível. Nenhum dos dois lados consegue recuar primeiro sem sentir que está perdendo.

A história nos mostra esse roteiro em duas situações, e vale lembrar como terminou. Em 1939, Einstein e Szilard escreveram ao então Presidente Roosevelt, alertando que a Alemanha nazista poderia chegar primeiro à bomba atômica. Não foi um cálculo ético que abriu o Projeto Manhattan, foi o medo de perder a corrida. A Alemanha se rendeu em maio de 1945 sem nunca ter chegado perto da bomba; a justificativa original desapareceu, mas a bomba foi terminada e usada três meses depois, sobre o Japão. Os mesmos cientistas que pediram pressa em 1939 assinaram, em 1945, uma petição pedindo para não usá-la. Foram devidamente ignorados, e a lógica da corrida, uma vez lançada, já não obedecia a quem a começou.

Em 1957, o Sputnik pegou os americanos de surpresa e lançou a corrida espacial contra os soviéticos, não por uma prudência científica, mas por uma guerra geopolítica. O Presidente Kennedy declarou que ir à Lua “precisamente porque é difícil”, não porque fosse o momento mais seguro. Funcionou, mas custou a vida dos três astronautas da Apollo 1 e recursos que uma deliberação mais cautelosa teria gasto de outro jeito.

O que muda desta vez é que quem pede cautela não são dissidentes de fora, são os próprios construtores, antes do estrago acontecer. Isso é inédito e merece toda a nossa atenção. A história sugere, com uma frieza desconfortável, que, quando o medo de ficar para trás entra em cena, ele quase sempre vence a deliberação. Essa é a psicologia mais previsível que existe diante de uma ameaça percebida como existencial. É uma questão intertemporal.

Isso vale para países e vale, em escala menor, para as empresas que discuto nesta coluna, para qualquer liderança que sinta a concorrência empurrando decisões que sabe, no fundo, que deveriam ser mais lentas. Não vamos poder esperar Washington e Pequim resolverem isso por nós. A prudência, se vier, vai ter que ser escolhida, não imposta.

Iona Szkurnik é fundadora e CEO da Education Journey, plataforma de educação corporativa que usa Inteligência Artificial para uma experiência de aprendizagem personalizada. Com mestrado em Educação e Tecnologia pela Universidade de Stanford, Ionaintegrou o time de criação da primeira plataforma de educação online da universidade. Como executiva,Ionaatuou durante oito anos no mercado de SaaS de edtechs no Vale do Silício.Ionaé também cofundadora da Brazil at Silicon Valley, fellow da Fundação Lemann, mentora de mulheres e investidora-anjo.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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