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De Belarus à Venezuela, derrotados foram presos ou fugiram depois do voto: o que a fuga de Flávio Bolsonaro tem de igual e de diferente

Moraes mandou Flávio Bolsonaro entregar os passaportes, e a PF os cancelou ao meio-dia de terça (27). O pedido da PF foi assinado sete minutos depois da confirmação do resultado, segundo O GloboFoto: Imagem gerada por IA/ND Mais

O senador Flávio Bolsonaro, como sabemos, já está nos Estados Unidos. Uma fonte do Departamento de Estado disse à AFP que Washington emitirá vistos para ele e a família, algo que teria sido confirmado pelo próprio Trump. Aliados falam em coletiva de imprensa e pedido de asilo.

Se for confirmado, o nome é fuga, e o fujão tem endereço. Mas a história tem um segundo capítulo que não pode ser escondido: a velocidade da decisão que o precedeu.

O fujão

Flávio foi intimado na segunda-feira e, segundo a petição dos deputados do PT, gravou um vídeo dizendo que cumpriria a ordem. O prazo terminou às 11h de terça. Ele não entregou os passaportes, a PF os cancelou ao meio-dia e, na tarde de terça, apareceram os relatos de que ele estava a caminho dos EUA com mulher e filhas.

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O roteiro foi anunciado em público. Na sexta-feira, quatro dias antes, o irmão Eduardo disse em podcast americano que Flávio deveria deixar o país se perdesse. Quem tem milhões de votos, advogados, um Senado e um Supremo para recorrer escolheu o jatinho.

Lula, que na terça chamou a saída de vergonhosa, disse que “quem não deve não teme”. A frase é uma simplificação, porque inocente também se defende, mas Flávio entregou de bandeja o argumento.

Em 2018, Lula, que se dizia perseguido, apresentou-se à PF em Curitiba, ficou preso e teve as condenações anuladas depois. O contraste dói em quem foge.

Não é a primeira vez

Venezuela, 2024: Edmundo González, que reivindicou a vitória, ganhou mandado de prisão cerca de cinco semanas depois da votação, passou semanas em embaixadas e foi para a Espanha.

Uganda, 2026: Bobi Wine, que teve 24,7% contra 71,65% de Museveni, disse ter escapado de uma incursão militar à sua casa na noite seguinte à votação e segue escondido. A polícia nega.

Camarões, 2025: Issa Tchiroma, que reivindicou a vitória, fugiu para a Nigéria e depois para a Gâmbia, e um aliado, Anicet Ekane, morreu sob custódia. Sri Lanka, 2010: o general Sarath Fonseka, derrotado, foi preso 13 dias depois da votação e levado a corte marcial.

Belarus, 2010: vários candidatos de oposição foram detidos na noite da votação.

Brasil: Jair Bolsonaro viajou aos EUA antes da posse de Lula, em 2022, e foi preso preventivamente em novembro de 2025 por risco de fuga. Eduardo Bolsonaro, Alexandre Ramagem e outros aliados também estão fora do país.

A diferença é importante, e quem a ignora erra. Nesses países, as acusações costumavam ser abertamente políticas (“usurpação”, “traição”) e os tribunais não eram independentes. No Brasil, os inquéritos sobre apostas e sobre o Banco Master existiam antes da eleição, e há um Supremo e recursos.

Flávio não é Edmundo González.

A pergunta incômoda: por que tão rápido?

Segundo a coluna de Malu Gaspar, no O Globo, o TSE confirmou o resultado às 21h09 de domingo, e a PF assinou às 21h16 um pedido de 16 páginas para apreender os passaportes.

Moraes atendeu na mesma noite, sem ouvir a PGR. O STF não esclareceu o horário da decisão, e a ordem foi cumprida na manhã de segunda, quando Flávio visitava o pai.

A PF alegou três motivos: a fala de Eduardo, o poder econômico do senador e estruturas que ele teria no exterior. Também citou a perda futura do foro privilegiado. Essa lógica tem sentido, porque a derrota muda o cálculo de um investigado.

Mas ela não responde a quatro perguntas:

  • Por que esperar o resultado?
  • Se o risco de fuga existia na sexta, quando Eduardo falou, por que não se pediu antes? Se só passou a existir com a derrota, a medida se apoia no resultado da eleição, que é exatamente o que a defesa alega: que o mesmo raciocínio valeria se ele tivesse vencido.
  • Por que sem a PGR? Em julho de 2025, as cautelares contra Jair Bolsonaro foram impostas após pedido da PF e com aval da PGR. Dessa vez, o caminho foi mais curto.
  • Por que o horário e a cena? Um pedido pronto sete minutos depois do resultado sugere um documento preparado antes, o que é prudência para o investigador e combustível político para o investigado.

O que acha o governo? O ND Mais mostra que ministros de Lula consideram a ordem precipitada e atribuem a Moraes parte da responsabilidade pela saída de Flávio. Até deputados do PT pediram a prisão, e o Planalto teme transformar o derrotado em mártir.

Moraes errou no tempo. A fuga deu razão ao receio da PF, mas um tribunal que decide em minutos contra o derrotado de uma eleição presidencial alimenta a narrativa de perseguição, e Flávio, que a vive, ainda a ganha de presente.

E agora?

Os EUA sinalizam que vão recebê-lo, e Eduardo, condenado em junho e com mandado desde 8 de outubro, segue livre lá. Asilo não encerra investigação, e uma extradição passaria por um juiz americano e pela decisão final de Marco Rubio. Aqui, o pedido de prisão dos deputados do PT ainda não foi decidido.

Conclusão

Flávio perdeu a eleição no domingo e perdeu, na terça, a chance de provar o que alega. Moraes errou no tempo.

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