Em setembro, escrevemos aqui sobre Tuvalu — o atol do Pacífico que está criando um “Tuvalu Digital” para existir mesmo que suas ilhas desapareçam sob o mar. Mas Tuvalu não está sozinha.
Há um grupo de países no mundo cuja existência física está sendo progressivamente ameaçada pelo aumento do nível do mar — e cada um está respondendo de forma diferente à mesma pergunta existencial: o que você faz quando o chão que sustenta sua nação começa a desaparecer?
As respostas que esses países encontraram revelam algo importante sobre criatividade, soberania, justiça climática e o que significa ser um Estado quando o território físico deixa de existir.
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Maldivas: a estratégia de hedge mais sofisticada do mundo
As Maldivas são um arquipélago de 1.200 ilhas no Oceano Índico com cerca de 500 mil habitantes. O ponto mais alto do país está a 2,4 metros acima do nível do mar.
As projeções de aumento do nível do mar ao longo do século XXI variam entre 0,5 metro no cenário otimista e mais de 1 metro no cenário de altas emissões — o que tornaria a maioria das ilhas maldivas inabitável, especialmente quando combinado com ondas de tempestade e erosão costeira.
O governo maldiviano tomou uma decisão que parece paradoxal mas é na verdade sofisticada: está investindo simultaneamente em sobrevivência local e em saída planejada.
Para a sobrevivência local, as Maldivas estão construindo Hulhumalé — uma ilha artificial criada por dragagem de areia do fundo do mar, elevada a 2 metros acima do nível do mar atual, destinada a abrigar metade da população do país. É uma solução de engenharia audaciosa e cara, e não resolve o problema do longo prazo — mas compra décadas.
Para a saída planejada, o governo maldiviano comprou terra no Sri Lanka e na Austrália — reservas de território onde a população poderia eventualmente ser relocada se a situação se tornar insustentável. O presidente Nasheed disse, em frase que ficou famosa: “Se as Maldivas não puderem ser salvas, o que dá esperança às nações insulares de baixa altitude em todo o mundo?”
O paradoxo final das Maldivas é que o país promove ativamente seu turismo de praia e resorts de luxo — a indústria que sustenta sua economia — enquanto esses mesmos resorts são construídos nas ilhas mais vulneráveis ao aumento do nível do mar.
O turista que chega de avião para férias num resort de água cristalina provavelmente emitiu mais carbono naquela viagem do que um maldiviano médio emite em um ano.
Kiribati: a “migração com dignidade”
Kiribati é um país de 33 atóis dispersos pelo Pacífico central, com cerca de 120 mil habitantes. Seus pontos mais altos raramente ultrapassam 3 metros acima do nível do mar. O país já experimenta intrusão de água salgada nos aquíferos subterrâneos de água doce — tornando partes do território já hoje inabitáveis por falta de água potável.
O presidente Anote Tong, que governou Kiribati de 2003 a 2016, desenvolveu o conceito que chamou de “migração com dignidade” — a ideia de que a população de Kiribati precisaria eventualmente se mover, mas que esse movimento deveria acontecer de forma planejada, voluntária e com preservação da cultura e identidade nacional, em vez de como fuga desesperada de refugiados climáticos.
Para implementar essa visão, o governo de Kiribati comprou 2.000 hectares de terra nas Ilhas Fiji em 2014 — território que poderia eventualmente acomodar parte da população caso as ilhas tornem-se inabitáveis.
O plano inclui também um programa de formação profissional para que os kiribatianos possam migrar para países como Nova Zelândia e Austrália com qualificações que garantam sua aceitação nos mercados de trabalho.
É uma visão que trata a realidade climática com honestidade brutal: em vez de fingir que tudo ficará bem, Kiribati está se preparando para o pior enquanto trabalha para evitá-lo. A dignidade está em não esperar até que não haja mais escolha.
Bangladesh: 170 milhões de pessoas, um delta e uma crise que já começou
Bangladesh é categoricamente diferente dos casos anteriores. Não é uma ilha minúscula — é um dos países mais populosos do mundo, com 170 milhões de habitantes. Mas tem uma vulnerabilidade geográfica extraordinária: é essencialmente um delta — o Delta do Ganges-Bramaputra-Meghna — onde três dos maiores rios da Ásia encontram o Mar de Bengala.
Aproximadamente 17% do território do Bangladesh está a menos de 1 metro acima do nível do mar. Com aumento de 1 metro ao longo do século, estima-se que entre 17 e 20 milhões de pessoas seriam deslocadas apenas pela elevação permanente do nível do mar — sem contar as inundações sazonais mais intensas que o aquecimento global está produzindo.
Bangladesh já é hoje o país mais afetado por desastres climáticos no mundo, de acordo com múltiplos índices de risco. Ciclones mais intensos, inundações mais frequentes, erosão costeira acelerada e intrusão de sal em terras agrícolas já estão criando fluxos de migrantes climáticos internos que Dhaka — já uma das cidades mais densas do mundo — absorve com dificuldade crescente.
O que Bangladesh está fazendo
A resposta bangladeshiana é menos elegante do que a maldiviana ou a kiribatiana — porque a escala não permite elegância. O país está investindo em diques, barreiras costeiras e polders — sistemas de proteção aquática copiados em parte dos Países Baixos. Está relocando populações de ilhas particularmente vulneráveis para terras mais altas.
E está, mais importante, argumentando nas negociações climáticas internacionais que os países que mais emitem carbono têm uma responsabilidade específica para com os países que mais sofrem as consequências sem tê-las causado. Bangladesh emite menos de 0,5% das emissões globais de carbono. Está absorvendo consequências desproporcionais ao que causou.
Países Baixos: o país que aprendeu a viver com a água
Os Países Baixos são tecnicamente o caso mais avançado de engenharia de adaptação climática do mundo — e o único em que o problema não é novo mas tem séculos de história.
Aproximadamente 27% do território holandês está abaixo do nível do mar. Sem os sistemas de diques, bombas e canais que os holandeses construíram ao longo de 1.000 anos, boa parte do país simplesmente não existiria como terra habitável. Amsterdã, Rotterdam e Haia estariam no fundo do mar sem a infraestrutura hidráulica que mantém o país seco.
A resposta holandesa ao aumento do nível do mar no século XXI é continuar fazendo o que sempre fizeram — mas em escala maior e com tecnologias mais avançadas.
O programa “Room for the River” reconfigurou dezenas de rios para acomodar volumes maiores de água sem inundar áreas residenciais. O Deltawerken — sistema de barreiras e comportas que protege o sudoeste do país — é uma das maiores obras de engenharia civil da história moderna.
Os Países Baixos também exportam esse conhecimento. Empresas de engenharia hidráulica holandesas trabalham em projetos de proteção costeira em Bangladesh, Vietnam, Moçambique e dezenas de outros países vulneráveis. O problema que ameaça sua própria existência tornou-se um dos seus maiores ativos econômicos.
O que esses casos revelam sobre justiça climática
Quando se olha para Kiribati, Maldivas, Tuvalu e Bangladesh juntos, emerge um padrão de injustiça que as negociações climáticas internacionais tentam endereçar — com sucesso limitado.
Esses países contribuem com frações de porcentagem das emissões globais de carbono. As emissões que estão derretendo as calotas polares e elevando o nível do mar vieram principalmente de países industrializados ao longo do século XX — Europa Ocidental, América do Norte, mais recentemente China.
Os países que mais causaram o problema são, na maioria, geograficamente seguros. Os países que menos causaram estão pagando com sua existência física.
Na COP28 de Dubai em 2023, foi criado o “Fundo de Perdas e Danos” — um mecanismo para compensar países em desenvolvimento pelos danos climáticos que já estão sofrendo e que não podem mais ser evitados.
Foi a primeira vez que o princípio de que os grandes emissores devem compensar financeiramente os mais afetados foi formalmente reconhecido.
O valor comprometido — aproximadamente US$ 700 milhões — é uma fração ínfima do que cientistas estimam ser necessário, mas representou um reconhecimento histórico de responsabilidade.
O que isso tem a ver com o Brasil
O Brasil não está desaparecendo — mas tem um interesse direto no que acontece com esses países.
Primeiro: o Brasil é signatário dos acordos climáticos que comprometem os grandes emissores a reduzir carbono. Quanto mais rápido o mundo reduz emissões, mais lento é o aumento do nível do mar e mais tempo esses países têm para se adaptar.
Segundo: o Brasil tem costa. Mais de 7.400 quilômetros de litoral, incluindo cidades como Recife, Fortaleza, Rio de Janeiro, Florianópolis e Santos.
Projeções de aumento de 1 metro no nível do mar ao longo do século ameaçam infraestrutura, moradia e atividade econômica em partes substanciais dessa costa — especialmente onde a urbanização avançou até a beira do mar.
Terceiro: o Brasil tem o Pantanal e a Amazônia — os maiores reguladores climáticos do hemisfério sul. O que acontece com essas regiões afeta o ciclo hídrico de todo o continente e, indiretamente, a estabilidade climática que protege os países insulares.
Kiribati está comprando terra nas Fiji porque seu chão está desaparecendo. Maldivas está construindo ilhas artificiais enquanto compra terra em outros países. Tuvalu existe digitalmente para sobreviver ao que vem.
São soluções criativas para um problema que não deveria existir — se os países que causaram o problema houvessem agido quando ainda havia tempo de fazer diferença.
O relógio não parou. Mas está ficando mais difícil ignorar o som que faz.